O que o anarquismo e a psicoterapia têm em comum?

Noam Chomsky, linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, define o anarquismo como uma atitude de ceticismo a respeito da dominação, da autoridade e da hierarquia. Em suas palavras:

“Acredito que toda autoridade tem de se justificar. Que toda hierarquia é ilegítima enquanto não demonstrar o contrário. Às vezes pode se justificar, mas na maioria das vezes, não. E isso… isso é anarquismo.”

– Noam Chomsky

Claramente, Chomsky não está falando sobre “anarquia” no sentido pejorativo, que trata o termo como sinônimo de caos ou arruaça, mas do sistema de valores de autogestão, de cooperação voluntária sem hierarquia. Nesse sentido, o anarquismo valoriza a autonomia, a auto-organização, e a cooperação. O anarquismo para Chomsky, assim como para outros diversos autores, não é um objetivo a curto ou longo prazo, mas é mais como um norte, uma direção para onde se orientar.

Essa atitude geralmente é concebida como política. Mas pode ser concebida como uma atitude intrapessoal também, o que podemos afirmar que é a essência da psicoterapia.

Steven Hayes, um dos criadores da Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT – do inglês Acceptance and Commitment Therapy) afirma que, o objetivo da terapia é a diminuição de regras destrutivas, através da mudança de fatores contextuais. Para Hayes, os objetivos clínicos da ACT são:

  • Minar o domínio do conteúdo verbal literal da cognição que ocasiona o comportamento de se esquivar de experiências internas indesejáveis;
  • Ao mesmo tempo construir um contexto alternativo no qual o comportamento orientado pelos valores da pessoa seja mais provável de ocorrer.

Nesse sentido, para ACT, não é que não devemos ter regras (muitas vezes elas podem ser muito úteis), mas que as regras devem se justificar. Se não se justificarem, fodam-se as regras.

Os seres humanos e as regras

De acordo com a Teoria das Molduras Relacionais (Relational Frame Theory) criada por Steven Hayes e Dermot Barnes-Holmes, o que caracteriza a cognição e a linguagem humana é a habilidade aprendida de relacionar eventos de forma: arbitrária, mútua, combinatória e a transformar as funções desses eventos de acordo com as suas relações com outros. As propriedades essenciais do responder relacional derivado (a cognição e linguagem humana) são que as relações entre os eventos são:

  • Arbitrárias: as relações entre A e B, por exemplo, não são determinadas por suas propriedades físicas (imagine, por exemplo, que determinada cultura dita que A vale mais do que B, mesmo B sendo maior / mais pesado / mais colorido do que A);
  • Mútuas: se A vale mais do que B, então B vale menos do que A;
  • Combinatórias: se A vale mais do que B e B vale mais do que C, então A vale mais do que C;
  • Transformação de funções: se C adquire uma função aversiva e A é maior do que C, então A adquire uma função mais aversiva do que C.

Dito de forma simples, estamos falando aqui de relações como a simbolização, onde um evento simboliza outro (A significa B). A simbolização ou coordenação é apenas uma entre diversas molduras relacionais; podemos falar de molduras de comparação, oposição, distinção, hierarquia, de relação espacial, de relação causal, entre diversas outras.

Diferente dos outros animais, que aprendem somente através dos princípios de condicionamento respondente e operante, no ser humano esse último princípio dá origem à emolduração relacional, o responder relacional derivado.

Outros animais também relacionam eventos entre si – interagem com um objeto em termos de outro -, mas somente com base em suas propriedades físicas ou do treino direto, ou seja, relacionam de forma restrita, somente com base nas propriedades experienciadas – por exemplo, escolher a maior dentre duas ou mais bananas. Esse tipo de comportamento é chamado de “responder relacional não-arbitrário“.

Já os humanos são capazes de fazer essas relações independentemente das propriedades físicas dos objetos experienciados, e elas emergem a partir das relações ensinadas. Somos capazes de relacionar eventos de forma arbitrária, por pura convenção social. Por exemplo, uma nota de 100 vale mais do que uma de 50; não existe nada nelas que determine seus valores absolutos ou relativos. Esse tipo de comportamento é chamado de “responder relacional arbitrariamente aplicável”.

Os humanos podem, até certo ponto, se livrar do domínio das funções diretas dos estímulos que são estabelecidas pelo ambiente. Dito de outra forma, a linguagem e a cognição criam “realidades paralelas” na qual estamos tão submersos que muitas vezes nem percebemos que elas dominaram nosso comportamento.

Por um lado, essa capacidade de relacionar eventos arbitrariamente é uma benção, nos permitindo aumentar em muito nossas habilidades de resolução de problemas, planejamento e autocontrole. Segundo Yuval Noah Harari, autor de Sapiens: uma breve história da humanidade, essa “ordem imaginada” (em oposição à “ordem natural” ou na linguagem da Teoria das Molduras Relacionais – relações diretas x relações arbitrárias) é que teria sido a responsável pela cooperação em escala nunca vista em qualquer outra espécie que não a humana, e que por sua vez teria sido a responsável justamente pelo domínio do planeta pelo ser humano.

Sapiens: uma breve história da humanidade

Por outro lado, essa mesma capacidade que nos faz prosperar como espécie, tende naturalmente e com uma grande contribuição da cultura a nos tornar miseráveis no nível individual e parecer uma maldição: ela nos afasta do contato com nossa experiência direta. Passamos a viver em uma ficção compartilhada, em uma ilusão coletiva (a “ordem imaginada”, nas palavras de Harari). Ao seguir regras arbitrárias aprendidas por mera convenção social, nos tornamos insensíveis à experiência direta, o que, obviamente, nos acarreta diversos problemas.

Passamos a ver nossos pensamentos como se eles fossem o que nos dizem que são, a seguir regras rígidas, a ter uma obediência cega aos nossos pensamentos e emoções. Nesse contexto no qual tomamos nossas experiências internas literalmente (com nossas mentes sendo ditadores autoritários), começamos a fugir das experiências dolorosas ou desconfortáveis, restringindo nossa vida ao invés de irmos atrás do que realmente importa para nós mesmos. A fuga da “dor de presença” (os pensamentos e sentimentos indesejados) leva à “dor de ausência” (a vida valorizada não vivida). A dor se transforma em sofrimento. Geralmente, quanto mais você vive tentando fugir da dor de presença, mais dor você tem, especificamente na forma de dor de ausência.

A psicoterapia como um movimento libertador de ilusões coletivas

Da mesma forma que o anarquismo adota o posicionamento de jogar o ônus da prova para a dominação, autoridade e hierarquia, o trabalho psicoterapêutico consiste em jogar o ônus da prova para as regras: elas se justificam? Elas funcionam? Trazem mais vida? Estão a serviço de que valor? Se a regra se justifica, ótimo, podemos conscientemente (e não mais cegamente) seguí-la. Mas se a regra não se justifica, então o domínio da regra deve ser desfeito e substituído por uma relação mais livre com a experiência, de forma a deixar nossos valores guiarem nosso comportamento.

Embora a psicoterapia não seja um processo necessariamente vinculado à qualquer ideologia, o anarquismo e a psicoterapia têm um caráter contracultural. O anarquismo é contra a ideologia capitalista e neoliberal na qual a autoridade fica (sem legitimação) nas mãos de quem tem o capital. Do mesmo modo, no livro The Happiness Trap, Russ Harris fala sobre alguns mitos, armadilhas e regras que a ACT vai na contramão:

  • De que a alegria é o estado natural de todo ser humano (a concepção hedonista da felicidade, em oposição à eudaimonia);
  • De que se não estivermos nos sentindo alegres e eufóricos o tempo todo, não somos normais;
  • De que alguns pensamentos e sentimentos são negativos e que devemos nos livrar deles;
  • De que devemos ser capazes de controlar tudo o que sentimos e pensamos.

Para o anarquismo, a desobediência (a uma autoridade não legítima) é uma virtude. Da mesma forma, no processo terapêutico, a desobediência cega às regras é substituída pela atenção plena (observar os pensamentos e sentimentos, não seguí-los) e essas mesmas regras são subordinadas aos valores individuais (o que o indivíduo aspira a ser, a serviço do que pretende agir), não mais à uma programação cultural.

Essa desobediência às regras, por definição, acaba sendo um pré-requisito para a criatividade, uma das maiores virtudes de acordo com a ética da aspiração de Richard Taylor. Para Taylor, a criatividade pode ser exercida em qualquer atividade que pode ser avaliada em termos de habilidade e é sempre feita de forma mais hábil quando não é executada por regras, hábito ou imitação, mas com originalidade bem sucedida – ou seja, de forma deliberada, presente, consciente e original. Para o autor, a criatividade seria a excelência na função humana (a virtude), portanto a desobediência seria a condição necessária para a virtude.

"No final, tenho apenas um ensinamento verdadeiro para você. Uma palavra simples: desobediência."
“No final, tenho apenas um ensinamento verdadeiro para você. Uma palavra simples: desobediência.”

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