A experiência como objeto do design

O nascimento da Psicologia Científica

Muitos estudiosos da história da psicologia dão como um marco do nascimento da psicologia científica a fundação do primeiro laboratório de psicologia experimental, criado por Wundt em 1879. Querendo se separar da tradição filosófica (até então a psicologia era considerada uma área da filosofia), Wundt também criou toda uma abordagem para se fazer psicologia. Em sua proposta, o objeto de estudo da psicologia deveria ser os processos elementares da consciência, ou seja, as relações e combinações destes elementos que formam a experiência. Assim como na química, o psicólogo deveria estudar o todo, separando o seus elementos básicos, como a atenção, intenções etc.

Como método de investigação, Wundt inventou algo denominado como introspeção analítica, um tipo formal de auto-observação, no qual os sujeitos treinados deveriam responder perguntas específicas sobre sua experiência imediata, atentando para os elementos que formavam esta experiência.

Sendo influenciado pela física da época, a sua proposta de psicologia, é atualmente considerada como atomista e mecanicista1. Essa forma de se abordar a psicologia ficou sendo conhecida como estruturalismo.

A evolução

Várias abordagens vieram depois2, com argumentos contra o estruturalismo de Wundt difíceis de serem ignorados.
No começo do século passado, em Viena, um médico austríaco funda o que denomina como uma meta-psicologia, em referência à psicologia da época. Se a psicologia estudava a experiência consciente, o sistema teórico que ele fundava, estudava o inconsciente, o qual determinava o consciente. Nascia a psicanálise, a partir dos estudos clínicos de Freud. A psicanálise, como uma proposta de ciência e prática, tinha o inconsciente como objeto de estudo, e postulava que a consciência e a experiência consciente eram como a parte visível de um iceberg, ou seja, havia muito mais. O método deveria ser a investigação clínica, através das interpretações do psicanalista das associações livres do paciente.

Nos EUA, Watson criou o behaviorismo (comportamentalismo) metodológico, que criticava a subjetividade da introspeção como método de pesquisa. Para os behavioristas metodológicos, o objeto de estudo da psicologia deveria ser o comportamento publicamente observável, e o método de estudo deveria ser o experimental, manipulando e controlando as variáveis. Watson, influenciado pelos cientistas russos, como Pavlov, usou e abusou das noções de estimulo-resposta, para criar uma ciência determinista e experimental.

Correndo por fora, sendo mais uma abordagem pedagógica do que propriamente psicológica (embora, obviamente interligadas), surgia também o Construtivismo. Piaget e Vygotsky, os principais representantes desta abordagem, postulam que o conhecimento é construído através das interações sociais que o indivíduo tem com seu ambiente. Vygotsky, influenciado pelo marxismo e seu aspecto coletivista, sustenta que a mente é construída socialmente, sendo todos os processos mentais superiores, internalizações de processos sociais (por exemplo: o pensamento como internalização da comunicação). Piaget, com sua epistemologia genética, postula a adaptação ao ambiente das estruturas cognitivas através dos mecanismos de assimilação e acomodação.

Se a América era seduzida por Watson com seus argumentos contra a subjetividade da proposta de Wundt, na Alemanha, outros pesquisadores argumentavam contra a divisão da experiência em pequenas partes, alegando que nas experiências, o todo era diferente da soma de suas partes. Nasce aí a abordagem mais conhecida pelos designers, pela sua ênfase na percepção: a Gestalt. Kurt Koffka, Wolfgang Kohler e Max Wertheimer, entre outros, postulavam que o objeto dessa psicologia deveria ser o significado que a pessoas dão aos fatos, ou seja, sua experiência subjetiva. Os métodos de estudo deveriam ser a introspeção informal, a fenomenologia e os experimentais.

Mais ou menos na década de 40, novamente nos EUA, surgia um novo tipo de comportamentalismo. Skinner, contestando o behaviorismo metodológico de Watson, as abordagens mentalistas da psicologia (como a Gestalt, Psicanálise e outras) e o mecanicismo, cria uma filosofia da ciência (epistemologia) chamada de Behaviorismo Radical. O BR postula que a psicologia deve ser a ciência do comportamento, mas não somente do comportamento publicamente observável, como para Watson, mas de qualquer tipo de comportamento, seja ele interno, privado, externo ou público (por exemplo: sentir, pensar, perceber etc.). Postulava também que o método de uma ciência do comportamento deveria ser principalmente o indutivo, evitando constructos fictícios internalistas, como mente e cognição. Para Skinner, comportamento não seria sinônimo de resposta (como para Watson), mas de interação. Logo, o objeto de estudo da Análise do Comportamento seria a relação entre o organismo e seu ambiente. A partir dessa filosofia, surgia a Análise do Comportamento, que muitos ainda discutem se faz ou não parte da psicologia.

Algum tempo depois, pesquisadores e psicoterapeutas americanos, influenciados pela proposta de Skinner, mas também por diversos outros teóricos como Piaget e Vygotsky, como também por paradigmas do processamento da informação, dão nascimento à psicologia cognitiva. A abordagem cognitivista postula que a cognição deve ser o objeto de estudo da psicologia, por ser o processo mental que está por detrás do comportamento. Essa proposta herda do behaviorismo radical a ênfase em definições operacionais e em pesquisas de laboratório, mas coloca novamente a mente como explicação do comportamento. Assim, processos cognitivos, como a percepção, atenção, memória, pensamento etc. seriam os responsáveis pelos comportamentos, e seriam estes processos que a psicologia deveria ter como objetos de estudo.

Alguns comentários

Atualmente, não temos uma psicologia unificada. Ainda temos diversas abordagens da psicologia: temos a neo-psicanálise, a análise do comportamento, o biocomportamentalismo, a psicologia cognitiva, as abordagens humanistas, entre outras. Correndo por fora, temos a neurociência, que por seu aspecto biológico, quase não tem contestações na grande mídia.

Geralmente, define-se a psicologia como a ciência da mente e do comportamento. Algumas propostas ficaram pra trás, como o estruturalismo de Wundt. Outras evoluíram, como a transformação do behaviorismo metodológico na análise do comportamento. Outras misturaram idéias antigas com mais novas, como o cognitivismo.

O User Experience Design

User Experience Design (UXD) é muitas vezes descrito como um termo “guarda-chuva”, algo que engloba diversos outros conhecimentos e práticas, como o Design de Interação, a Arquitetura da Informação, a Engenharia de Usabilidade, o Design de Interfaces, entre outros. Neste contexto, experiência do usuário refere-se ao total das experiências que o usuário tem através de suas interações com o produto, serviço, sistema ou empresa.

A questão controversa aqui é o sentido que se dá ao termo experiência. Podemos adotar o sentido do Wundt: a experiência consciente que a pessoa tem, formada pelos diversos processos elementares. E aí, usar uma abordagem atomista, para decompor a experiência do usuário em diversos elementos, como parece ser a proposta do Peter Morville, que dividiu a experiência do usuário em utilidade, usabilidade, encontrabilidade, credibilidade, acessibilidade, desejabilidade e valor. Essa proposta (mais especificamente, seu diagrama) ficou conhecida como o User Experience HoneyComb (favo de mel da experiência do usuário).

Não digo que esse sistema de classificação não tenha o seu valor (na realidade, o seu grande valor está em reconhecer que a experiência está nas relações entre o comportamento do usuário e as características do artefato / produto / sistema / serviço). Mas não deixa de ser curioso o fato de que mais de um século depois da proposta de Wundt, a estratégia adotada por ele, e refutada tantas vezes por tantos psicólogos, seja adotada pelos designers.

Notas de Rodapé

1 Atomista por tentar entender o todo como a soma de suas partes. Mecanicista, por ter uma relação mecânica de causalidade.

2 Sei que estou sendo injusto e omitindo algumas abordagens da psicologia ou mesmo, passando superficialmente por outras. Estas seriam as principais do meu ponto de vista.

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