As práticas de bem-estar como assassinas da reflexão ética

“Nós somos os reguladores que desregulam

Nós somos os animadores que desanimam

Nós somos os propagadores de todo genocídio

Queimando os recursos do mundo

Então nós nos viramos e nos escondemos” – System Of A Down – Cigaro

Em algum momento recente da história, a noção de felicidade se transformou, de viver bem para se sentir bem, sentir prazer, alegria, euforia, bem-estar. Se antes, a felicidade era o balanço geral de toda uma vida, agora ela é entendida como uma questão de sentir sensações agradáveis e prazerosas.

Antes, no sentido de eudaimonia, viver bem, boa vida, a felicidade era objeto da reflexão ética, que nos ajudava a nos questionar:

Que tipo de pessoa eu vou me tornar? Que virtudes eu tenho de adquirir? Como vou modelar o meu caráter? Quais são as qualidades necessárias a serem exercidas para ocupar adequadamente o meu lugar no mundo?

Agora, como uma dose de sensações agradáveis, a felicidade passa a ser mercadoria de wellness / bem-estar ofertada por indústrias tão diversas quanto a saúde mental, alimentação, cosmética, cirurgias de beleza, drogas (ilícitas), farmacêutica (drogas lícitas), estilo de vida, dentre outras inúmeras (na verdade, atualmente, talvez seja mais difícil encontrar exceções, na medida que o imperativo do crescimento e desenvolvimento econômico como um todo gira em torno de vender a felicidade como uma dose de bem-estar).

Seria muito fácil culpar de forma abstrata o neoliberalismo, mas essa transformação vem sido realizada desde antes, talvez desde a Modernidade, com a fracasso do projeto Iluminista de justificar racionalmente a moralidade (o neoliberalismo se encaixa aí como racionalidade da Hipermodernidade, uma intensificação da Modernidade). A “morte de Deus” anunciada por Nietzsche significava justamente o fracasso desse projeto Iluminista, fazendo com que a humanidade caísse num estado de ausência de valores (niilismo), o qual teria que ser superado de forma existencialista (“a existência precede a essência”), com o próprio indivíduo tendo que encontrar o seu própósito, significado e criar valores para si mesmo.

Nesse sentido, se o diagnóstico de Nietzsche sobre a Modernidade foi preciso, sua solução representou, para Alasdair MacIntyre, o auge do individualismo liberal no que tange a ética: julgamentos morais seriam questões meramente individuais, não contextualizadas social e historicamente.

Se por muito tempo (durante a Idade Média), a humanidade vinha seguindo uma moralidade infantil da obediência (deontológica) à preceitos morais religiosos, desde a Modernidade, ela vem seguindo uma moralidade adolescente (utilitarista), buscando a maximização do prazer e minimização da dor. Se a ética das virtudes desempenhava o papel do caminho para o florescimento, a ética deontológica desempenhava o papel de coesão social, atualmente, a ética (?) utilitarista desempenha o papel de tornar a concepção da felicidade em algo míope, individualista e atomicista.

O bem-estar entra aí na lógica de consumo, de receber (“Venha a nós o vosso Reino”), de aproveitar de forma hedonista os recursos que o mundo pode nos dar. É uma lógica passiva, bem compatível com a visão neoliberal da pessoa como consumidor. Por outro lado, o neoliberalismo, apesar de usar uma lógica utilitarista com o imperativo da eficiência (o lucro como propósito único da empresa, a empresa como modelo de subjetivação para o indivíduo, e o prazer como propósito único do indivíduo), ainda consegue distorcer o vocabulário ético, jogando toda a responsabilidade da felicidade ou sofrimento do indivíduo para ele mesmo.

Nesse contexto, no qual as únicas escolhas que o indivíduo tem são o que consumir, a indústria de bem-estar é um prato cheio de ofertas. Além disso, a indústria oferece cada vez mais uma série de práticas individuais, nas quais o indivíduo teria um papel mais ativo na construção do seu próprio bem-estar: expressar gratidão, cultivar o otimismo, se amar, praticar atos de bondade, cultivar relações sociais, perdoar, meditação, exercícios físicos, etc. etc. etc. Não é a intenção aqui questionar o valor dessas ou outras práticas. A intenção é destacar o aspecto utilitarista com que elas são transmitidas: todas essas práticas de bem-estar seriam meios para o fim de se sentir bem, de maximizar o prazer e minimizar a dor. Mesmo a recomendação de “praticar atos de bondade” tem o objetivo final de causar uma dose de prazer para o indivíduo. Em momento algum entra alguma reflexão ética na transmissão dessas práticas; seriam práticas descobertas a partir da neutralidade técnica-científica.

A reflexão ética envolve a deliberação sobre o bem comum, sobre o viver bem. A reflexão ética não é sobre ser “bonzinho”, mas sobre como viver bem, sobre como viver uma vida feliz, mesmo com sensações desagradáveis, sofrimentos e infortúnios. Porém, as práticas de bem-estar disseminadas no neoliberalismo não encorajam nenhuma reflexão ética, apenas a adesão ou obediência à essa série de preceitos técnicos-científicos, como se viver bem fosse uma questão descontextualizada social e historicamente que pudesse ser respondida através da ciência. Nesse sentido, as práticas de bem-estar são o assassinato da reflexão ética: os reguladores (do bem-estar) que desregulam (o viver bem).

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