No ocidente, durante um bom tempo, a religião exerceu o papel ideológico de controle social. Ela fazia isso através da normatividade social (moralidade), mitos, ritos e, talvez principalmente, dando um significado para o sofrimento.

A narrativa religiosa atribuía o sofrimento ao pecado do próprio sofredor. Com isso, ela aparentemente resolvia o problema do seu significado, e assim, o sofredor pecador tinha então algum alívio, conforto, entorpecimento e anestesia do sofrimento através dessa narrativa paliativa. No entanto, esse significado religioso apenas abordava o sofrimento em si, não suas causas reais. Com isso, ele não só continuava (por não ajudar a resolver os problemas que realmente o causavam), como também aumentava pela culpa gerada por essa narrativa.

Com o Iluminismo e a secularização, a autoridade religiosa deu lugar para a autoridade científica, o que deu origem à medicalização da vida. A medicalização da vida substitui a religião. Nessa mudança de visão do mundo, o pecado foi substituído pela doença e a salvação foi substituída pela saúde.

A medicalização da vida é a ideologia que transforma questões que não são da medicina (como fenômenos psicológicos, modos de viver, problemas sociais) em questões que são abordadas através da aplicação de operações conceituais e práticas típicas da medicina, como saúde, doença diagnóstico, tratamento, paciente, internação, medicação, cirurgia etc.

A medicalização da vida tem semelhanças e diferenças em relação à religião. Assim como a religião, a medicalização exerce a função ideológica de controle social, dá uma narrativa que dê significado para o sofrimento emocional, não aborda as causas reais do sofrimento (deixa intactos os problemas que causam o sofrimento), anestesia temporariamente o sofrimento, mas acaba aumentando o sofrimento no longo prazo. Na sociedade disciplinar, tanto a religião quanto a medicalização da vida operam com o foco no negativo (no pecado e na doença, respectivamente), nas proibições, deveres e normas explícitas.

Mas assim como a sociedade disciplinar foi dando lugar aos poucos para a sociedade do controle / desempenho / risco, positivando o poder, transformando-o em algum muito mais sedutor do que explicitamente coercitivo, a medicalização da vida também vai mudando o seu foco do negativo para o positivo, da doença para a saúde.

Nessa positivação da medicalização da vida, ela passa a operar com o foco na saúde, produtividade, bem-estar, nos ideais que seduzem, normas que o sujeito segue voluntariamente, ao invés de serem explicitamente forçadas pelos outros, se tornando assim, muito mais eficiente e naturalizada. As normas sociais em torno do imperativo da saúde são “internalizadas”. Além de um higienismo, temos um salutarismo: o foco na super saúde como única realização possível do viver bem e que precisa ser buscada através de mudanças no estilo de vida individual.

Algumas das principais funções da religião são a coesão social, comunhão e pertencimento. A medicalização da vida vai na direção oposta, da desintegração social através do individualismo (o sofrimento como um defeito biológico individual e a saúde como um ideal inalcançável a ser perseguido individualmente). Ambas acabam distraindo as pessoas dos seus problemas reais ao anestesiarem elas do sofrimento e criarem ficções explicativas para esse sofrimento (o sofrimento como resultado do pecado e de anormalidades biológicas, respectivamente). Com isso, em diferentes momentos históricos da humanidade, tanto a religião como a medicalização acabam sendo o ópio do povo.

Referências bibliográficas:

  • A Medicalização da Existência e o Descentramento do Sujeito na Atualidade, Rogério Paes Henriques, 2012
  • A religião como má interpretação do sofrimento no humano, demasiado humano, de Nietzsche, Jelson Roberto de Oliveira, 2013
  • Medicalização do sofrimento na cultura terapêutica: vulnerabilidade e normalidade inalcançável, Mariana Ferreira Pombo, 2017
  • Medicalization and social control, Peter Conrad, 1992
  • Nietzsche and the Value of Suffering – Two Alternative Ideals, George Wrisley
  • O problema do sentido do sofrimento, Hailton Felipe Guiomarino, 2019
  • Salutarismo e medicalização da vida cotidiana, Robert Crawford, 1980
  • Sedated: How Modern Capitalism Created our Mental Health Crisis, James Davies, 2021
  • The Myth of Mental Illness: Foundations of a Theory of Personal Conduct, Thomas S. Szasz, 2010

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