“Rotule jarros, não pessoas”
Em quase qualquer área do conhecimento, fazer um diagnóstico consiste em encontrar as causas de um problema, para assim, conseguir resolver esse problema.
Na medicina, os médicos executam diversos exames e testes, por exemplo, para diagnosticar doenças que estão por trás dos sintomas e sinais que o paciente traz.
Se o meu carro estiver com problemas e eu levar num mecânico, o mecânico, antes de tentar me empurrar uma possível solução, vai fazer um diagnóstico para encontrar as causas dos problemas do carro.
Porém, não é assim que as coisas funcionam no diagnóstico psicológico / psiquiátrico dos transtornos mentais.
No “diagnóstico” de “transtorno mental”, ao invés de tentar encontrar as causas do problema que a pessoa traz, é realizado um agrupamento de “sinais” e “sintomas” (os fenômenos psicológicos apresentados e relatados) e, a partir de uma lista de verificação e classificação descritiva (que mistura as categorias de diagnóstico nosológico, sindrômico e topográfico), é dado um rótulo de uma “síndrome” (chamada normalmente de “transtorno” ou “doença mental”), sem nenhuma menção à sua causa.
É impressionante a quantidade de aspas necessárias para escrever uma frase dessas, o que revela o aspecto de faz de conta desse tipo de diagnóstico.
Deixando explícito suas origens médicas, no diagnóstico de transtorno mental, os fenômenos psicológicos são considerados sinais e sintomas, mas diferente da medicina (que realmente encontra doenças, ao invés de inventar doenças metafóricas como causas), não é encontrada e nem buscada nenhuma causa para esses fenômenos*. Ao invés de focar nas causas, o diagnóstico de transtorno mental descreve um conjunto mal-definido e genérico de fenômenos psicológicos enquadrados como sinais e sintomas de doenças, que são classificados (nosologia) em termos de suas formas (topografia), e rotuladas como uma síndrome (sem uma causa específica).
* Estou falando aqui do diagnóstico individual, mas diversas áreas procuram as causas dos chamados “transtornos mentais” há aproximadamente 150 anos e não foram capazes de encontrar alterações biológicas patológicas que seriam as causas de tais transtornos até hoje – motivo pelo qual não existem exames objetivos para realizar um diagnóstico de transtorno mental. Quando encontram alguma doença de verdade por trás dos fenômenos psicológicos problemáticos, o diagnóstico de transtorno mental desaparece (por ser entendido como um diagnóstico errado) e é substituído pelo diagnóstico da doença somática (por exemplo, epilepsia ou neurossífilis) e, assim tratado de forma médica.
Estritamente falando, doença é algo que só pode ser corporal (é algo que o corpo tem, não algo que alguém faz); “doença mental” é uma metáfora (como falar de um carro, economia ou piada doente) inapropriada e ideológica (como falar de um povo, raça ou etnia como sendo degenerado, sujo ou doente).
A síndrome diagnosticada não explica os fenômenos psicológicos, apenas acrescenta um rótulo a eles (e o que é pior, à pessoa), dando um caráter ilusório de que os fenômenos foram explicados, quando na realidade, não se avançou em nenhum passo. Em quase qualquer área do conhecimento, o diagnóstico funciona como uma etapa do processo de resolução de problemas, mas não no campo da saúde mental. No campo da saúde mental, à primeira vista, o diagnóstico de transtorno mental pode parecer apenas uma perda de tempo por não avançar em nada para a solução do problema, mas ele cria vários problemas…
Para começar, é comum que, mesmo entre os psicólogos e psiquiatras (e também, entre a população diagnosticada e/ou autodiagnosticada), se esqueça de que o rótulo é apenas uma etiqueta acrescentada aos fenômenos psicológicos, não a causa deles (esse esquecimento ou ignorância não é à toa, uma vez que desde a criação do conceito de doença mental, esse sempre foi associado à causas internas, sejam disfunções biológicas ou psicológicas). Assim, se cria uma tautologia ou raciocínio circular, no qual os fenômenos psicológicos são aparentemente explicados pelo transtorno, e sabe-se que a pessoa “tem” o transtorno através dos fenômenos psicológicos que ela relata ou apresenta. A pessoa sente tristeza, falta de interesse e desânimo porque tem depressão e tem depressão porque sente tristeza, falta de interesse e desânimo.
Pelo fato do diagnóstico apenas agrupar de forma descritiva (e porca) os fenômenos numa classificação de síndrome, o rótulo diagnóstico não encaminha para nenhum processo de resolução de problemas. Dentre 100 pessoas com “depressão”, por exemplo, cada uma pode ter n diferentes causas, o que faz o processo psicoterapêutico ser algo muito mais artesanal do que uma questão de procedimentos técnico-científicos, como seguir um protocolo.
Apesar disso, no contexto mercadológico em que competem com a indústria farmacêutica, as diversas abordagens psicoterapêuticas realizam uma corrida entre si para serem consideradas “tratamentos empiricamente suportados” (tratamentos de doenças que nem existem, para começo de conversa). De fato, uma imensa parte do empreendimento psicoterapêutico se sustenta na noção fictícia de psicopatologia, e sendo assim, é esperado que essa classe profissional a defenda com unhas e dentes. Também é muito conveniente para a classe dominante essa narrativa da doença mental como causa do sofrimento emocional e da diferença social, sendo portanto, passível de tratamento individual, despolitizante e alienante.
Apesar de ser uma categoria fictícia, o diagnóstico funciona como um marcador social. Se muito do discurso sobre “conscientização” (ideologia) acerca das doenças mentais promete a diminuição dos estigmas, na prática, as pesquisas revelam que o enquadramento do sofrimento emocional como sinônimo ou causado por uma síndrome, transtorno ou doença mental causam mais estigma social para a pessoa diagnosticada (além da possível identificação com o diagnóstico), aumentando assim, os seus problemas e, consequentemente, seu sofrimento. Além disso, essa categoria fictícia também é desempoderadora, uma vez que, se o sofrimento emocional da pessoa é causado ou relacionado com uma doença, ela não tem o menor controle sobre essa doença, a não ser ficando dependente da indústria da saúde mental.
Assim, o próprio diagnóstico pode impedir a resolução dos problemas que causam o sofrimento emocional por distrair a pessoa de entender quais são esses problemas e como resolvê-los, uma vez que o foco se transforma na categoria fictícia diagnóstica e nos procedimentos que a indústria da saúde mental tem para reduzir os seus “sintomas”.
Referências bibliográficas:
- How to Rethink Mental Illness: The Human Contexts Behind the Labels, Bernard Guerin, 2017
- Learning Process-Based Therapy: A Skills Training Manual for Targeting the Core Processes of Psychological Change in Clinical Practice, David N. Lorscheid, Stefan Hofmann, Steven C. Hayes, 2021
- Power, Responsibility and Freedom, David Smail, 2005
- Sedated: How Modern Capitalism Created our Mental Health Crisis, James Davies, 2021
- The Myth of Mental Illness: Foundations of a Theory of Personal Conduct, Thomas S. Szasz, 2010
- The Origins of Unhappiness: A New Understanding of Personal Distress, David Smail, 1993
- Turning Mental Health Into Social Action, Bernard Guerin, 2021
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