- Anormalidades biológicas
- Traumas
- Pensamentos disfuncionais
- Nenhuma das alternativas
Oficialmente, os transtornos mentais que temos catalogados no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) não são explicitamente doenças, mas síndromes: uma síndrome implica apenas em conjunto formal de sinais e sintomas; uma doença, por sua vez, implica, em além desse conjunto de sinais e sintomas, uma etiologia, tratamento, prognóstico etc. O DSM é enquadrado como uma ferramenta ateórica que não fala sobre causas, mas dado o modelo biomédico predominante da psicologia e psiquiatria hegemônicas, cria-se uma confusão conceitual no imaginário popular e de profissionais de saúde mental, que faz com que a síndrome catalogada (uma mera coleção de fenômenos psicológicos) seja encarada como uma doença e, portanto, causa dos fenômenos psicológicos considerados como sinais e sintomas.
A síndrome como doença e a doença como desequilíbrio químico ainda é a versão oficial do modelo biomédico: a explicação de que o sofrimento emocional seria causado por anormalidades biológicas.
A hipótese da anormalidade biológica começou no século XIX, quando os médicos começaram a atender pessoas cujo sofrimento emocional era completamente diferente do sofrimento que estavam habituados a lidar. Mas com a “loucura” e o sofrimento emocional passando a ser objeto da medicina, começou a ser concebida e tratado como tal: doenças, diagnósticos, tratamentos, medicamentos, doentes, pacientes etc. A aposta da época era que, com o tempo, os avanços científicos e tecnológicos descobririam as alegadas anormalidades biológicas.
* Da recusa à demanda de diagnóstico: novos arranjos da medicalização (Mariana Ferreira Pombo, 2017)
Porém, em 150 anos de pesquisas extremamente bem financiadas (e com a década de 1990 sendo a “década do cérebro”), não foi possível encontrar nenhuma anormalidade biológica que tivesse relação de causalidade com o sofrimento emocional, seja no nível neuropatológico, neuroquímico, genético ou outros.
Existem correlações fisiológicas com todos os fenômenos psicológicos (nenhum fenômeno psicológico é possível sem uma base fisiológica), mas atribuir o sofrimento emocional a algum mecanismo biológico não só é falso do ponto de vista científico, como também é um reducionismo biológico ideológico, que desconsidera todo o contexto social, material e político do sofrimento emocional.
* Sedated: How Modern Capitalism Created Our Mental Health Crisis (James Davies, 2021)
Com o declínio (muuuuito) gradual do modelo biomédico, outra narrativa começa a despontar: por trás de toda doença mental, haveria um trauma, que deixaria uma marca ou algum mecanismo biológico intermediário do sofrimento emocional. É um avanço, no sentido de procurar causas externas ao sofrimento emocional, mas ainda tem uma série de pressupostos não examinados, até por ser um termo que também vem da linguagem médica.
Um dos problemas é que a definição de trauma começa a se ampliar (falam de “trauma com T” e “trauma com t” para diferenciar eventos traumáticos típicos e eventos traumáticos menores) de forma a ficar cada vez mais frouxa, com tudo sendo trauma, com o trauma como causa alegada (mas não comprovada) de tudo, e criando uma cultura do trauma. Assim, apenas realiza-se uma substituição conceitual da anormalidade biológica pelo trauma.
Uma outra hipótese ainda é de que as doenças mentais são causadas pela forma com que interpretamos os eventos na nossa vida: pensamentos disfuncionais, distorcidos, irrealistas ou irracionais causariam transtornos mentais. Essa é uma explicação típica da psicologia, que embora (dessa vez) não invente qualidades ou entidades fictícias, ainda pode ser considerada como uma psicologização, ao explicar a ocorrência de determinados eventos psicológicos (o sofrimento emocional) à outros eventos psicológicos (o pensamento), sem referência ao contexto no qual ocorrem.
Essa explicação é tão ou mais ideológica que a do desequilíbrio químico, uma vez que culpa o próprio indivíduo pelo seu sofrimento, e acaba caindo em um pensamento mágico de consertar o processamento cognitivo da pessoa.
O maior problema de todas essas explicações (anormalidades biológicas, trauma e pensamentos disfuncionais) é que elas partem da premissa de que doenças mentais existem como um dado a ser explicado, quando, na realidade, o conceito de doença mental surge de pura ignorância de 2 séculos atrás (e da aliança com o poder ideológico, na medida em que, se o sofrimento emocional é causado por uma doença no indivíduo, não é necessário mudar as suas condições materiais e sociais).
* The Origins of Unhappiness: A New Understanding of Personal Distress, David Smail, 1993
Mesmo ao se substituir uma explicação por outra, se dá legitimidade à noção de doença mental e, com isso, continuidade à cultura do diagnóstico, o conjunto de práticas culturais relacionadas a atribuição de causalidade da experiência e sofrimento emocional à doença rotulada pelo diagnóstico.
Essa cultura do diagnóstico faz parte de uma outra prática cultural mais ampla de patologização dos eventos psicológicos e, de forma mais ampla ainda, da medicalização da vida e de problemas sociais, que tem como consequência abordar o que é chamado de saúde mental de forma individualista, descontextualizada e despolitizada.
* A cultura do diagnóstico e a emergência de subjetividades psicopatológicas (João Pedro Alves Matos e Tiago Alfredo da Silva Ferreira, 2016) & Sedated: How Modern Capitalism Created Our Mental Health Crisis (James Davies, 2021)
Se o conceito de doença mental não tem base científica, não faz sentido procurar explicações científicas para o mesmo. É como tentar explicar porque a Terra é plana.
O que chamamos de doenças mentais é determinado completamente por nossa falta de conhecimento do contexto em que o sofrimento emocional das pessoas acontecem. Ao contextualizar as ações e reações das pessoas, começamos a despatologizar o sofrimento emocional e demais fenômenos psicológicos relacionados a problemas de “saúde mental”.
* Turning Mental Health Into Social Action (Bernard Guerin, 2021)
O nosso entendimento de que o sofrimento emocional surge de problemas ou experiências adversas depende de contextualizarmos esse sofrimento: buscarmos as condições materiais e sociais relevantes relacionadas ao sofrimento, ao invés de inventarmos causas internas ou fictícias.
Quando ignoramos o contexto do sofrimento emocional, a saída mais fácil é inventarmos doenças mentais e depois inventarmos causas para elas. No entanto, ao criarmos uma série de explicações fictícias, não temos como resolver o(s) problema(s) que causa o sofrimento emocional; é como se estivéssemos com o mapa de navegação da Terra plana.
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