Muitos psicólogos e psiquiatras, ao falar da depressão, tentam desfazer alguns mitos que giram ao seu redor. O discurso segue explicando que a depressão não é falta de deus, como alguns leigos alegam, mas sim uma doença mental (“uma doença como outra qualquer”) causada por um desequilíbrio químico no cérebro (níveis baixos de serotonina). Por um lado, a narrativa do desequilíbrio químico parece ser mais moderna, laica e plausível. Mas, em termos científicos, ela tem tanto ou menos evidências do que a narrativa da falta de deus.

A ideia de que a depressão se deve a baixos níveis de serotonina foi proposta pela primeira vez na década de 1950s pelo psiquiatra George Ashcroft, quando ele pensou ter descoberto níveis baixos no cérebro de pessoas que haviam cometido suicídio e de pessoas com depressão. Pesquisas posteriores, porém, não mostraram níveis mais baixos de serotonina nessas pessoas, por isso, desde 1970, Ashcroft desistiu publicamente dessa hipótese (Crazy Like Us: The Globalization of the American Psyche, Ethan Watters, 2010).

A ideia voltou à tona quando testaram o efeito de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), uma classe de psicofármacos que ajuda a aumentar os níveis de serotonina, em pessoas com depressão e obtiveram resultados positivos. Isso parecia dar evidências para a hipótese de níveis baixos de serotonina como causa da depressão. No entanto, pouco tempo depois, testaram o efeito de outra droga, a Tianeptina, que reduz os níveis de serotonina, em pessoas com depressão e tiveram os mesmos resultados que tiveram com ISRS (CBT: The Cognitive Behavioural Tsunami – Managerialism, Politics and the Corruptions of Science, Farhad Dalal, 2018). A conclusão lógica é que os níveis de serotonina não podem ser  a causa da depressão.

Portanto, por mais moderna e científica que pareça ser, a hipótese do desequilíbrio químico foi rejeitada. Essa hipótese tem seus méritos: ela pode ser testada e, sendo testável, podemos aprender através dela. Mas, apesar de ser testada e rejeitada, ela continua como um dos grandes mitos da saúde mental e, que aos poucos, foi se disseminando não só em relação à depressão, mas a outros chamados transtornos mentais (mesmo continuando sendo rejeitada cientificamente).

O mérito da hipótese da falta de deus não é ela ser falseável, muito longe disso (além de poder culpar o próprio indivíduo deprimido). Mas talvez, interpretando seu subtexto, possamos encontrar algumas formas construtivas de lidar com a depressão.

A depressão é caracterizada como uma condição da “desconexão”: a pessoa com depressão se sente desconectada do mundo, dos outros, dos seus interesses e de si mesmo. Ora, religião significa religar. Para a sociologia, uma das maiores funções da religião é a coesão social e o senso de pertencimento e conexão social que ela providencia com a comunidade. Com a “morte de Deus” desde a Modernidade (como anunciada por Nietzsche), seria de se esperar os efeitos da perda da religião: o isolamento, a desconexão, a solidão, a perda do sentimento de pertencimento comunitário. Desde a Modernidade, com a consolidação da revolução industrial e do capitalismo, para obtermos os recursos que precisamos, passamos cada vez mais a nos relacionarmos com estranhos que não têm o menor motivo para se importarem conosco, além de questões contratuais. A qualidade das nossas relações, obviamente, sofreu com isso.

Além disso, se quando vivíamos em comunidades baseadas em parentesco, tínhamos uma identidade mais estável porque as pessoas com quem nos relacionávamos eram pessoas que conhecíamos por quase toda nossa vida, com a Modernidade, nossa identidade foi se tornando cada vez mais fragmentada por dependermos de estranhos e ficarmos desesperadamente tentando adivinhar o que esperam de nós, nos submetendo à tendências, modismos e caprichos sociais (How to Rethink Mental Illness: The Human Contexts Behind the Label, Bernard Guerin, 2017).

Outras mudanças relevantes que aconteceram na Modernidade (e que foram intensificadas na Hipermodernidade) para entender a depressão são o despreparo na infância para a vida adulta; o individualismo predominante; a ampliação da exigência generalizada do alto desempenho; o aumento do estresse; o consumismo ostensivo; a comparação incessante entre atributos pessoais e a vida irreal idealizada, fazendo o indivíduo se sentir inadequado e exausto de tanto se otimizar e se explorar (A depressão como fenômeno cultural na sociedade pós-moderna: um ensaio analítico-comportamental, Yara Nico, Jan Luiz Leonardi e Larisa Zeggio, 2016 & A Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han, 2010).

A depressão também é caracterizada pela falta de atividades recompensadoras, principalmente sociais, que tragam sensação de prazer e/ou competência. Atualmente, as pessoas (empregadas) passam a maior parte do tempo que estão acordadas trabalhando para obterem seus recursos em atividades que dificilmente conseguem se envolver (State of the Global Workplace 2021 Report) e que se sentem alienadas, pois essa a alienação é simplesmente a condição do trabalho desde a Modernidade.

Descendo do nível sociológico para o pessoal, talvez algumas das psicoterapias mais eficazes para a depressão (“eficácia” aqui se referindo a como os estudos clínicos randomizados definem a redução de sintomas e sinais da depressão, sendo uma noção problemática desde o seu início) sejam terapias que foquem justamente nos problemas sociais, decorrentes da “falta de deus”, no âmbito pessoal.

A Terapia Interpessoal foca em resolver problemas de relacionamentos, o contexto interpessoal do indivíduo com depressão (The guide to interpersonal psychotherapy, Gerald Klerman, John Markowitz, e Myrna Weissman, 2018). A Ativação Comportamental foca em encontrar fontes estáveis e diversas de recompensas através de atividades ditas “antidepressivas naturais” (Behavioral Activation for Depression: A Clinician’s Guide, Christopher R. Martell, Sona Dimidjian e Ruth Herman-Dunn, 2013).

A verdade é que, pela depressão, diferente das doenças biológicas reais, ser um construto social bem pouco delimitado e bastante vago (dependente da cultura e da época), não temos como saber exatamente as causas dela. Cada indivíduo com “depressão” pode ter um contexto social e histórico com diferentes causas para essa “depressão” (justamente o oposto de uma doença).

Na psicoterapia, não existe “o sujeito médio com depressão”; cada pessoa é única, cada depressão é única e suas causas são diferentes. Os exercícios interpretativos, resultados de pesquisas e modelos experimentais gerais (nomotéticos) podem ser bem úteis para nos dar pistas de onde procurar, mas precisamos encontrar o problema específico do indivíduo (ideográfico) no padrão que chamamos de depressão para tentar ajudá-lo a resolver esse(s) problema(s) no meio de tantos arranjos sociais estruturais que geram os problemas na esfera pessoal. O que sabemos é que o problema não é um desequilíbrio químico.

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