Na sociedade hipermoderna, o que não falta é informação. Temos uma abundância de informações que geralmente reproduz a ideologia da nossa época, os discursos ou narrativas dominantes que justificam a dominação de muitos por poucos.

Esse discurso, essa narrativa da ideologia é tão dominante que parece até bom senso, a ponto de ser raramente questionada. Quando é questionada, os questionadores são acusados de negacionistas, fóbicos e sofrem risco de cancelamento, linchamento virtual e/ou sanções econômicas.

Um bom exemplo de ideologia é o discurso dominante sobre as doenças ou transtornos mentais. Temos informações abundantes que se multiplicam como um vírus. Testes online para autodiagnósticos, sites com todas as informações possíveis para diagnosticar outras pessoas, podcasts sobre transtornos mentais, grupos contra psicofobia, quadros no Fantástico sobre transtornos específicos. Tudo com boas intenções de se criar uma conscientização.

“A propaganda política está para uma Democracia assim como o porrete está para um Estado Totalitário.” – Noam Chomsky

Na sociedade hiperconectada, não precisamos mais de propaganda política, como entendida tradicionalmente. O porrete foi democratizado e, agora, todos somos transmissores, vetores e receptores ideológicos. A indústria farmacêutica, por exemplo, não pode fazer propaganda direta para os consumidores aqui no Brasil. Não pode, mas também nem precisa, com toda a cultura do diagnóstico, patologização e medicalização da vida e de problemas sociais.

Para Ethan Watters, a difusão de informações sobre problemas de saúde mental como entendidas pela versão ocidental do discurso sobre saúde mental (a versão medicalizada de que o sofrimento emocional é resultado de uma doença mental, uma doença como qualquer outra) acaba moldando a expressão do sofrimento emocional nos países e culturas em que essa narrativa não científica é importada. Ao apresentar um modelo de quais expressões são aceitáveis e normalizadas (mesmo que patologizadas), esse modelo é reproduzido e, com isso, o que chamamos de doença mental acaba se multiplicando.

* Crazy Like Us: The Globalization of the American Psyche, Ethan Watters, 2010

As doenças mentais são contagiosas no sentido de serem, em parte, moldadas pelas informações disponíveis sobre as formas de expressão do sofrimento emocional disponíveis em um determinada época. No período vitoriano, a histeria era uma doença mental “normal”. Hoje, nem existe mais.  Na realidade, em termos científicos, nenhuma doença mental existiu até hoje, o que sempre existiu foi o sofrimento emocional causado por problemas e moldado para ser expresso de diferentes formas.

Algo que vale a pena reparar é o caráter das campanhas de conscientização existente atualmente. Conscientização, nesse contexto, é usado no sentido de imposição de uma narrativa como sendo a única narrativa possível, de catequização, colonialidade, de disseminação da informação como a transmissão de um vírus. 

As campanhas ou ações de conscientização, longe de estimular qualquer consciência crítica, promovem uma monocultura sobre o assunto abordado, eliminando qualquer outra perspectiva.

No entanto, para autores como Ignacio Martín-Baró, Paulo Freire, entre outros ligados à psicologia da libertação, educação popular, entre outras, a conscientização está sempre relacionada à consciência crítica, desideologização dos discursos dominantes, desnaturalização das condições opressivas e dominadoras, e problematização das circunstâncias. A conscientização não poderia ser imposta, mas precisaria ser, necessariamente, construída. 

A conscientização é o processo pelo qual um indivíduo ou grupo se transforma através da mudança da sua realidade por meio da “leitura” crítica sobre o mundo, da consciência das contradições sociais e políticas, e da ação contra a opressão e desumanização.

A conscientização, nesse sentido freiriano, nos proporcionaria uma imunização, não contra o sofrimento emocional, mas contra a narrativa ideológica das doenças mentais.

No entanto, de forma parecida com um doublespeak orwelliano, na maioria das vezes que o termo conscientização é usado para se referir à doenças mentais, seu significado é o de doutrinação ideológica, sem nenhuma consciência crítica. A conscientização = ideologização sobre doenças mentais é uma forma de se criar e transmitir doenças mentais (que não existem) às pessoas, com todas as noções individualistas, despolitizadas e alienantes que giram ao seu redor.

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