“Coma os canibais de verão
Coma, coma, coma”
– Patti Smith
Para Foucault, com a modernidade, o poder soberano (da ameaça da morte, tomando a vida como objeto, sendo simbolizado pelo sangue, tortura, guilhotina e decapitação) se tornou o poder disciplinar. O poder disciplinar é o poder normativo (regras e obrigações) que busca corrigir defeitos e desvios, administrando a vida e o corpo das pessoas para se tornarem máquinas de produção, se adaptando à industrialização, sendo simbolizado pela ortopedia, deformação, instituições disciplinares e gestão da demografia.
No entanto, para Byung-Chul Han, a partir do neoliberalismo, há aproximadamente 4 décadas, a sociedade e suas formas de controle mudam novamente. Se na sociedade disciplinar, éramos sujeitos subjugados e obedientes, hoje nos julgamos como projetos livres para sempre nos reinventar.
A lógica do capitalismo não mudou, só se intensificou: o canibalismo está para o capitalismo como o autocanibalismo está para o neoliberalismo.
O imperativo do capital continua a ser maximizar lucros para os acionistas, maximizar a produção. Mas com o neoliberalismo, seus dispositivos passam por mudanças: o poder passa a ser “smart”. A disciplina da biopolítica tem seus limites: o corpo é disciplinado e administrado, mas a disciplina não alcança totalmente a “interioridade”, a subjetividade humana. Além disso, o poder disciplinar se exerce como negatividade: proibições, deveres, ordens, negação de vontades. As normas submetem a pessoa de forma explícita, fazendo ela se sentir subjugada, obediente.
A psicopolítica entra aí positivando o poder, com um aspecto cada vez mais permissivo e com uma aparência de liberdade, pura exploração de vontades. Ao invés de proibir, a psicopolítica desregulamenta, proibindo proibições. Os ideais positivos da sociedade do desempenho, diferentes das normas negativas da sociedade disciplinar, servem de projeção para as pessoas perseguirem voluntariamente. As normas da biopolítica exercem uma coerção negativa; já os ideais da psicopolítica exercem uma coerção positiva: motivação e iniciativa.
O modelo de subjetividade passa a ser a corporação. Por isso, o sujeito do desempenho escolhe modos de viver seguindo a lógica de negócios, o imperativo da eficiência, o cálculo do custo x benefício. Essa lógica de negócios substitui a moralidade, dever, compulsoriedade e promove a auto-otimização e auto-exploração compulsivas, tendo a felicidade e o sucesso como imperativos máximos.
A felicidade e sucesso estão para as pessoas como os lucros e produtividade estão para as empresas. E se na sociedade disciplinar, o sujeito da obediência se alimentava do outro, na sociedade do desempenho, o projeto se alimenta de si mesmo.
Ao transformar os trabalhadores em empreendedores, o neoliberalismo faz com que ao invés de ser explorado pelo outro, o trabalhador passe a ser explorado por si mesmo. A luta de classes é “resolvida” jogando ela para dentro do próprio sujeito do desempenho: quando a pessoa não se adequa ao desempenho em termos dos novos ideais perseguidos de produtividade e positividade, a aparente liberdade não causa uma revolução, mas depressão. Assim, a psicopolítica promove o isolamento, impedindo a solidariedade, a relação com os outros como fins (hoje, é tudo networking) e a união política. Os cidadãos assumem apenas o papel de consumidores passivos.
A sociedade disciplinar criou o panóptico com um motivação moralista ou biopolítica. Mas o panóptico digital atual é psicopolítico (abrimos mão da privacidade de forma voluntária), seu imperativo é econômico e através do Big Data / Big Brother, nos tornamos cada vez mais transparentes para os Big Business que usam os nossos dados pessoais, o que fazemos, onde estamos, com quem estamos, o que buscamos para nos conhecer melhor do que nós mesmos e, com isso, vender mais. Nossa subjetividade é não apenas moldada pela psicopolítica, mas transformada em mercadoria.
“(…) à medida que pinturas rupestres gradualmente evoluíram para transmissões de televisão, ficou mais fácil iludir pessoas. No futuro próximo, algoritmos poderão completar esse processo, fazendo com que seja praticamente impossível que as pessoas observem a realidade por si mesmas. Serão os algoritmos que decidirão por nós quem somos e o que deveríamos saber sobre nós mesmos. Por mais alguns anos ou décadas, ainda teremos escolha. Se fizermos esse esforço, ainda podemos investigar quem somos realmente. Mas, se quisermos aproveitar essa oportunidade, é melhor fazer isso agora.” – Yuval Noah Harari (21 lições para o século 21)
Nesse sentido, talvez a forma mais importante de resistência à psicopolítica seja a reabilitação da política e amadurecimento da moralidade (David Smail, Taking Care: An Alternative to Therapy, 1997): passamos por um estágio infantil com uma moralidade religiosa na qual obedecíamos cegamente as proibições e ordens coletivas impostas pelos pais ou autoridades divinas (o estágio do camelo de Nietzsche), depois por um estágio adolescente com uma moralidade da busca pela felicidade individualista (o estágio do leão de Nietzsche) e, agora precisamos criar (o estágio da criança de Nietzsche) uma nova moralidade que coloque as pessoas acima dos lucros, que reflita o respeito pela dignidade humana comum a todos nós e que seja capaz de impulsionar nossos projetos políticos de bem viver em convivência.
“Moralidade não quer dizer ‘cumprir os mandamentos divinos’. Quer dizer ‘diminuir o sofrimento’. Daí que, para agir moralmente, não é preciso acreditar em nenhum mito ou narrativa. Só é necessário desenvolver uma profunda noção do que é sofrimento. Se você souber que uma ação causa um sofrimento desnecessário a você e a outros, você naturalmente se absterá de empreendê-la.” – Yuval Noah Harari (21 lições para o século 21)
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