Marx disse que a religião era o ópio do povo. Isso, no sentido de que a religião estava, sem querer, ajudando a exploração dos trabalhadores ao sedá-los do sofrimento que se fosse encarado, iria levá-los a se unir para lutar por mudanças sociais.

Marx acreditava que o sofrimento sempre tinha sido um poderoso catalisador de grandes mudanças sociais. No entanto, pelo cristianismo enquadrar o sofrimento como uma virtude, ele estava ensinando indiretamente as pessoas a aceitar e suportar as condições opressivas que estavam as prejudicando ao invés incentivá-las a lutar e mudar essas condições.

Dessa forma, como qualquer outro paliativo, a religião poderia oferecer um alívio temporário do sofrimento no curto prazo, mas no longo prazo, ela não resolveria os problemas sociais e econômicos que causam esse sofrimento, permitindo assim que a situação se agravasse. Foi nesse sentido que Marx caracterizou a religião como o ópio do povo: como um paliativo para o sofrimento e um sedativo para o impulso de transformação social.

As instituições sociais responsáveis por entender e administrar o sofrimento emocional são extremamente importantes para a economia, por terem o poder de neutralizar tendências políticas perigosas para a manutenção do status quo, desviando a atenção das verdadeiras origens do sofrimento das pessoas, ao criar ideologias e narrativas dominantes que justifiquem a opressão de uns por outros.

Nos últimos 40 anos, podemos falar que a indústria da saúde mental tem sido o novo ópio do povo. Desde o neoliberalismo, a indústria da saúde mental tem sido utilizado pela economia da seguinte forma:

  1. Enquadrando o sofrimento emocional de forma a proteger a economia de críticas: ao usar, abusar e disseminar o modelo biomédico (a explicação de que o sofrimento emocional seria causado por doenças mentais que teriam origens em anormalidades biológicas como desequilíbrios químicos), as pessoas foram levadas a acreditar que a causa do sofrimento emocional que sentem são elas mesmas, portanto, o que precisa ser mudado ou consertado é algo interior e individual, não as condições sociais e políticas.
  2. Definindo o viver bem de acordo com os objetivos da economia: enquadrando o propósito da vida como a felicidade e sucesso individualista (prevenindo a união e solidariedade entre as pessoas, causando um isolamento e, com isso, um desempoderamento); felicidade como sinônimo de alegria e euforia como fins, como resultado da aquisição de mercadorias, sucesso como posse material, e o valor da vida humana de acordo com a sua produtividade e positividade.
  3. Patologizando comportamentos e emoções que poderiam impactar negativamente a economia: expressões de descontentamento com o status quo ou esgotamento devido às exigências irrealistas de desempenho foram tratados como sinais e sintomas de doenças que poderiam ser medicalizadas e medicamentadas.
  4. Transformando o sofrimento em oportunidade de negócios: o sofrimento emocional criado pelo próprio sistema econômico pode se tornar uma demanda, uma vez que existam diferentes indústrias dispostas a oferecer produtos, serviços e experiências que aliviam esse sofrimento.

Tudo isso não foi resultado de uma conspiração ou algo do tipo: Para sobreviver, a indústria da saúde mental, como qualquer instituição social, teve que se adaptar e acabou se subordinando à economia neoliberal e, por lidar diretamente com o sofrimento emocional, cumpriu o papel de novo ópio do povo ao servir como um paliativo que impedisse a transformação social.

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