A psicoterapia como um treino para a vida

“Ninguém vai bater mais forte do que a vida. Não importa o quanto você bate e sim o quanto aguenta apanhar e continuar lutando; o quanto pode suportar e seguir em frente. É assim que se ganha.”

– Rocky Balboa

Na última semana fiz uma maratona dos filmes do Rocky com a minha esposa. Embora seja uma história fictícia, encontrei muitos pontos em comum com a psicoterapia.

Em todos os filmes, antes da “última grande luta”, Rocky conta com um treinador cujo objetivo é fazer ele praticar, não o que ele já sabe, mas principalmente de forma a ele se superar em diversas habilidades que juntas compõem o “lutar boxe” (velocidade, força, resistência, técnica, golpes etc).

O treinador avalia o nível de habilidade de Rocky, passa alguns exercícios que o fazem gradualmente se superar. Rocky pratica junto com o treinador, que acompanha seu desempenho nessas sessões e passa feedbacks de como melhorar, porém ele pratica a maior parte do tempo sozinho.

Na terapia, o processo não é muito diferente. Diversas pesquisas científicas já demonstraram que as psicopatologias estão relacionadas muito de perto com a inflexibilidade psicológica, enquanto que a saúde mental é caracterizada pela flexibilidade psicológica. A inflexibilidade psicológica é caracterizada por 6 processos:

  • Esquiva experiencial: a tentativa de fugir, evitar e controlar pensamentos e sentimentos indesejados.
  • Fusão cognitiva: o processo de se identificar com os pensamentos (sobre o passado, futuro, razões, regras, julgamentos) de forma a enxergá-los como verdades absolutas, não como apenas pensamentos.
  • Atenção inflexível: dominância do passado ou do futuro, com a mente viajando no tempo ao invés de ter um foco no momento presente – e, como consequência, se desconectar das pessoas, perder os aspectos importantes da experiência e fazer as coisas de “qualquer jeito”.
  • O Eu conceituado: ser fisgado pela sua própria história, ter um apego ao autoconceito.
  • Falta de contato com os valores: não saber o que importa para si mesmo.
  • Não fazer o que importa: ações inconsistentes com os valores e objetivos da pessoa.

A flexibilidade psicológica, por sua vez, é caracterizada por estar presente, aberto e fazer o que importa. Ou seja, estar em contato com o que está acontecendo dentro e ao redor de nós no momento presente (presença), dar espaço para os pensamentos e sentimentos ao invés de tentar mudar ou controlar nossa experiência (abertura) e fazer o que importa para nós (agir guiado pelos próprios valores).

Para tratar de diversas psicopatologias, a Terapia de Aceitação e Compromisso ensina certas habilidades que funcionam como antídotos para os processos psicopatológicos relacionados à inflexibilidade psicológica e que fortalecem a flexibilidade psicológica. Essas habilidades são:

  • Aceitação: se abrir e dar espaço para experiências internas indesejadas que não podem ser controladas.
  • Desfusão cognitiva: dar um passo para trás e enxergar os conteúdos mentais como o que eles são (pensamentos, sentimentos, emoções, sensações, impulsos, vontades etc.).
  • Contato com o momento presente: prestar atenção para nossa experiência neste momento e estreitando, ampliando, mudando ou mantendo o foco de acordo com o que é necessário.
  • O Eu Observador: praticar a observação do Eu que observa, que nota os pensamentos, sentimentos, e demais experiências.
  • Valores: saber o que realmente importa para si.
  • Ação comprometida: agir de forma consistente com os próprios valores.
Flexibilidade Psicológica: estar presente, aberto e fazer o que importa

Embora no imaginário popular a psicoterapia seja caracterizada pela conversa infinita entre o psicoterapeuta e o cliente/paciente (ou pelo monólogo do cliente deitado no divã), o processo terapêutico é muito parecido com o processo de treino ou de preparação pelo qual Rocky passa.

Assim como um treinador, o terapeuta:

  • Avalia o nível do cliente nessas habilidades relacionadas à flexibilidade psicológica e às principais queixas do cliente;
  • Passa alguns exercícios (baseados em evidências científicas) que fazem o cliente gradualmente evoluir, superando seu nível nessas habilidades;
  • Acompanha o desempenho do cliente nessas habilidades durante as sessões e dá feedbacks de como melhorar;
  • E revisa como estão essas habilidades na “vida real” do cliente através das práticas dele sozinho (fora das sessões).

Por se tratar de habilidades para lidar com as emoções e com a vida de forma geral (um conhecimento experiencial, não declarativo), o principal componente do processo terapêutico é a prática, não a teoria. Não adianta você tentar aprender a andar de bicicleta (ou lutar boxe) apenas lendo sobre o assunto. O essencial, tanto no boxe quanto no trabalho psicoterapêutico, é a prática. E para aprimorar uma habilidade, o melhor tipo de prática é a prática proposital ou deliberada. É através desse tipo de prática que ocorre a aquisição, manutenção e aprimoramento das habilidades relacionadas à flexibilidade psicológica. E é dessa forma que o cliente progride.

Outro tema nos filmes do Rocky que achei muito parecido com a psicoterapia, são os obstáculos que Rocky tem que enfrentar. Embora o contexto de todos os filmes traga um cenário competitivo, o boxe, o principal obstáculo de Rocky não é o outro lutador, mas sim ele mesmo e a forma como lida com as experiências internas e externas. Na terapia, isso é mais do que óbvio, e muitos dos maiores obstáculos dos clientes são psicológicos: como lidar com a ansiedade, medo, fobia, pânico, depressão, raiva, relações interpessoais e outros problemas emocionais.

Um último tema (complementar ao anterior) que me chamou a atenção foi que Rocky luta não para vencer o adversário, mas para se superar. Tanto no primeiro quanto no último filme (Rocky I e Rocky Balboa), ele fica mais do que satisfeito com um empate com o campeão, porque isso significa que ele chegou em um nível de desempenho muito superior ao anterior. Que ele se superou, que chegou em uma versão melhor de si mesmo no que realmente importa para ele. Ou seja, que está vivendo de acordo com seus valores.

Se o terapeuta é o treinador, o cliente é o lutador, e a vida é a luta. Afinal, como os estóicos já afirmavam muito tempo atrás:

“A arte de viver assemelha-se mais à luta do que à dança, porque é preciso estar preparado e firme para enfrentar o que vier e não o que pode ser previsto.”

– Marco Aurélio

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