O que é Alta Performance?

A área de alta performance começou com a psicologia do esporte, onde a alta performance se referia ao desempenho de atletas na prática de esportes, desempenho este geralmente muito acima dos “meros mortais”.

Com o tempo, não apenas o desempenho extraordinário de atletas ficou sendo o foco dessa área; ela se estendeu para práticas não esportivas, mas sempre tendo o desempenho extraordinário como objeto de estudo, seja de gênios científicos, artistas criativos, executivos capazes de entregar resultados extraordinários etc.

Nos últimos tempos, a alta performance passou a ser encarada não mais apenas como o desempenho de pessoas muito acima da média: no contexto terapêutico, se refere não somente ao desempenho das pessoas quando comparado com os dos demais, mas também, e talvez mais importante, o desempenho das pessoas quando comparado consigo mesmas. Ou seja, alta performance significa superar a si mesmo, ter um desempenho melhor do que se tinha ontem.

A ética da Alta Performance: a ética da aspiração

Como já vimos em um post anterior, Richard Taylor faz uma distinção entre dois tipos de éticas: a ética do dever e a ética da aspiração. A ética do dever se refere ao que é certo ou errado, ao que é permitido, proibido e obrigatório em determinada cultura. É acima de tudo uma questão de costumes e convenções e o que mais facilmente associamos com as palavras ética e moralidade. Essa ética do dever é muito similar ao que Nietzsche chamava de “moral escrava” e que consiste mais em uma moralidade do que em uma ética propriamente dita. Nesse sentido as perguntas que esse tipo de “ética” tentam responder são do tipo: “o que é ou deve ser proibido? O que é ou deve ser permitido? O que é ou deve ser obrigatório?”. Vale ressaltar que essa moralidade não era estranha aos filósofos, mas simplesmente não era entendida como sinônimo de ética. A ética para eles era uma questão diferente; dizia respeito à aspiração, aos valores, à virtude.

A ética da aspiração afirma que a virtude é a excelência na função humana. Todos os filósofos da antiguidade tinham esse conceito de ética em comum, o qual se entrelaçava com o conceito de eudaimonia, o viver bem. Viver de forma ética – com excelência, com virtude – significava viver feliz. Uma coisa não era distinta da outra.

Sócrates, Platão, Aristóteles, os Estóicos e diversos outros divergiam em um detalhe ou outro acerca do que seria a função humana e, consequentemente, a excelência nessa função. Mas todos afirmavam que o caminho para o viver bem consistia em cumprir essa função com excelência.

Hoje

Atualmente, a ciência e a filosofia não têm a pretensão de afirmar qual é a função ou o propósito humano universal. Em vez disso, cabe ao próprio indivíduo descobrir ou construir o seu propósito individual: quais são os seus valores, o que você quer defender ou representar na vida, como você quer ser, que tipo de pessoa você aspira ser, como seria a sua melhor versão. Essa identificação de valores é um dos pilares do trabalho psicoterapêutico.

Diferente do que é vendido normalmente, ter uma alta performance não está atrelado à carreira ou a ser um workaholic – embora, obviamente, em qualquer área que você queira agir com excelência, precisará fazer esforços, sacrifícios e priorizar. Você pode ter uma alta performance em qualquer área da sua vida – carreira, estudo e aprendizagem, hobbies, lazer, família, relacionamento íntimo, amigos, comunidade, espiritualidade, finanças, intelectual, saúde e disposição, etc. – por meio de qualquer atividade a ser desempenhada, contanto que essa área da sua vida e essa atividade expressem os seus valores, refletindo, assim, uma ética da aspiração. Dessa forma, cumprir seu propósito com excelência é ter uma alta performance.

Algumas dicas práticas

Como área de investigação científica, atualmente, sabemos muito sobre alta performance. De fato, mais do que o suficiente para caber em um post. No entanto, deixo abaixo alguns princípios de alta performance que merecem destaque e que são utilizados no trabalho psicoterapêutico ao buscar um desempenho extraordinário:

  • Periodização: é o ciclo de estresse e descanso. A chave para o crescimento físico ou mental é equilibrar a quantidade certa de estresse com a quantidade certa de repouso. Crescimento = Estresse + Descanso. Com base nesse princípio, chegamos a algumas recomendações para quando você estiver executando atividades que quer exercer com excelência:
    • Alterne entre ciclos de estresse e descanso em suas atividades mais importantes;
    • Faça pequenas pausas ao longo do dia – a atenção e desempenho humano apresentam um certo ritmo. Depois de determinado tempo (entre 50 e 90 minutos), a qualidade no desempenho da atividade começa a sofrer, por isso divida seu trabalho em blocos de 50 a 90 minutos;
    • Programe seus dias de folga prolongada para logo depois de períodos de estresse intenso;
    • Descubra o ponto em que a qualidade do seu trabalho começa a diminuir e coloque um intervalo para se recuperar logo antes desse ponto.
  • Prática deliberada: é o tipo de prática que leva à perfeição. Diferente do que afirma o ditado popular, a prática não leva à perfeição; o que leva à perfeição é o tipo certo de prática, no caso, a deliberada. Nesse tipo, o indivíduo esforça-se para alcançar um objetivo específico e bem definido, alcançar um patamar um pouco acima do seu nível de habilidade atual (ou seja, em um ponto no qual ainda não se tem o domínio), dá foco consciente total ao desempenho da atividade e recebe feedback sobre o próprio desempenho para saber se o que está fazendo está certo ou que tipo de correções ainda são necessárias. Além disso, Anders Ericsson, o criador do conceito de prática deliberada, afirma que para um campo de atividade poder passar por esse tipo de prática e, portanto, poder ter o seu desempenho aperfeiçoado, precisa:
    • Ter formas de mensurar o desempenho da atividade objetivamente;
    • Ter formas de incentivar a atividade (como por exemplo, uma competição contra os outros ou contra si mesmo);
    • Geralmente ser bem estabelecida, com as habilidades relevantes do campo de atividade terem sido desenvolvidas ao longo do tempo;
    • Ter pessoas que servem como professores, educadores e treinadores (como técnicos, coaches ou terapeutas) que ao longo do tempo desenvolveram técnicas sofisticadas de treinamento que tornam possível o aumento estável nos níveis de habilidade.

Conclusão

A alta performance não é algo restrito somente a atletas ou gênios. Qualquer um com aspiração e dedicação pode aplicar os princípios e técnicas descobertos pela área de alta performance para exercer a vida com excelência nas áreas e atividades que se importa. E por excelência ou sucesso, entenda agir de acordo com os próprios valores.

Livros recomendados:

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