Voltando às raízes: Hipertexto

Todos os conceitos mais avançados do design de hipermídia, como a arquitetura da informação, design de interfaces, design de interação / interatividade, design de navegação etc. giram em torno de certos conceitos básicos. Um dos principais é o de hipertexto.

Hipertexto: etimologia

O prefixo hiper significa acima de, sobre. Foi usado na Física, no início do século XX, para descrever o hiperespaço, no sentido matemático de um espaço elevado a n dimensões. Da mesma forma, que o termo foi empregado para se falar de um espaço não acessível aos nossos sentidos, outros termos como hipercubo e hipertexto também ganharam esse sentido, de não serem acessíveis diretamente à nossa percepção, por terem n dimensões. Desta forma, hipertexto, seria um texto multidimensional.

Hipertexto: conceito

O termo hipertexto foi criado por Ted Nelson para denominar um conjunto de nós conectados por links, os quais permitem a escrita e leitura de forma não-linear. Estes nós também podem ser chamados de lexias, blocos de conteúdo 1, mensagens ou documentos.

De forma geral, atualmente, quando falamos de hipertexto, falamos que é a forma de texto que mais se aproxima do pensamento. Mas isso, porque o próprio hipertexto, como o conhecemos hoje, foi projetado para que funcionasse de maneira idêntica ao pensamento. Não foi algo acidental…

O termo, cunhado por Nelson, foi idéia herdada de Vannevar Bush, que em seu artigo “As We May Think”, descreveu uma máquina-biblioteca, denominada como “Memex” (abreviação de Memory Extender), que organizasse melhor o conhecimento humano, e que para tal, funcionasse do mesmo modo que o pensamento no tratamento das idéias. A grande diferença entre o texto tradicional e o hipertexto seria o mecanismo de seleção entre os diversos blocos de mensagens:

“A mente humana não trabalha por indexação, e sim por associação”

O hipertexto, então, refletiria o modo como o pensamento humano opera. Ou seja, de forma não-linear e associativa 2..

Até certo ponto, toda leitura é realizada, pelo menos um pouco, de forma hipertextual, não-linear, uma vez que segundo André Lemos:

“a leitura é feita de interconexões à memória do leitor, às referências do texto, aos índices e ao index que remetem o leitor para fora da linearidade do texto”.

Referimo-nos como hipertexto porém, ao texto que é escrito (e não somente lido) de forma não-linear e que permite um número maior de associações realizadas pelo leitor/ interator. Estas associações, diferentemente, dos outros textos (”tradicionais”), levam o interator a lexias que usam do mesmo espaço (o ciberespaço). No texto tradicional, uma lexia poderia levar o leitor a realizar uma associação com outra lexia (uma cena de um filme levar o espectador a ler um livro), porém esta segunda, encontra-se em outro lugar. Já um hiperlink existente em um documento hipertextual, leva à outro documento hipertextual sem que para isso, o interator precise abandonar este espaço 3.

Hipertexto: tecnologia

É importante destacar que antes mesmo da revolução digital, já havia hipertextos. Citações, notas de rodapé, verbetes e termos em dicionários são exemplos de ligações contidas em lexias que levam o leitor a uma outra lexia, permitindo desta forma, que o leitor crie o seu proprio caminho de leitura.

A não-linearidade foi de certa forma almejada também, por diversos filmes, como Pulp Fiction, Corra Lola Corra, entre outros, onde a história era narrada de forma não-linear no tempo ou onde diversas possibilidades contraditórias entre si ocorriam.

As “antigas mídias” já pressionavam seus formatos mais lineares, segundo Janet Murray, “num esforço de exprimir uma percepção que caracteriza o século XX, a vida enquanto composição de possibilidades”.
Porém, foi com o advento da revolução digital e com toda tecnologia que ela trouxe, que o hipertexto ganhou novas formas de se concretizar, sendo produzido em larga escala. Este amplo uso do hipertexto reflete não uma possibilidade trazida pela tecnologia, mas um desejo cultural que foi possível de se concretizar graças a essa tecnologia.

Hipermídia x Hipertexto: controvérsias…

Há certa controvérsia se o termo hipertexto tem o mesmo significado ou não que hipermídia. Ted Nelson, por exemplo, o inventor dos dois termos, fala que hipermídia é o hipertexto acrescido de outras mídias que não puramente o texto escrito, como som, imagens etc.
 Tim Berners-Lee, juntamente com o W3C, usa a definição de Nelson, definindo hipertexto simplesmente como “Text which is not constrained to be linear” e hipermídia como “term used for hypertext which is not constrained to be text”.

Por outro lado, George Landow, autor de diversos livros sobre o tema (como “Hypermedia and literary studies” e “Hypertext 2.0″), diz que não há sentido nessa distinção, usando os dois termos como sinônimo, uma vez que o que importa é a não-linearidade entre as mensagens conectadas pelos hiperlinks, e não a mídia utilizada.
O filósofo Pierre Levy também defende essa posição, descrevendo os nós do hipertexto como “palavras, páginas, imagens, gráficos (…), sequências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmo ser hipertextos”.
Podemos perceber então que não há um consenso sobre essa questão. Para definirmos essa questão, teríamos que buscar a definição de texto. Se adotarmos a definição de texto como conjunto de caracteres, obviamente a distinção entre hipertexto e hipermídia é justificada. Se adotarmos o termo texto como sinônimo de discurso ou mensagem, não há motivo para distinção entre os dois termos.

Notas de rodapé

  1. A maioria dos autores falam sobre “blocos de informação”, porém eu prefiro usar o termo “conteúdo”, uma vez que o termo informação, segundo a própria teoria da informação, designa apenas conteúdos novos, ou seja, conteúdos transmitidos na mensagem as quais o receptor não tem conhecimento.
  2. A psicanálise, desde o seu início, sempre usou a técnica de “associação livre”. Talvez, ela poderia nos falar mais destas estruturas hipertextuais utilizadas na arquitetura da informação do que as teorias cognitivas, tão em moda ultimamente.
  3. Talvez possamos estabelecer uma maior distinção entre o texto “tradicional” e o hipertexto, adotando a diferença entre sistema aberto e sistema fechado. Textos tradicionais funcionam como sistemas fechados em si mesmo. Já hipertextos, funcionam de modo equivalente a sistemas abertos. Não sei, é só uma hipótese.

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



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