Visualização: considerações sobre a terminologia

InfoVis x sciVis (ou a espacialização dos dados)

O termo visualização da informação (infoVis) é aplicado para apresentações visuais de dados abstratos por meio do computador, dados que por si só, não possuem uma dimensão espacial inerente (ou que não sejam estes os dados mais importantes). O designer é quem decide como será aplicada a espacialização destes dados, pois não há um mapeamento visual geométrico direto entre os dados e as variáveis visuais utilizadas na apresentação. A imagem deve ser gerada com base nos relacionamentos ou informações ou história que podem ser inferidos dos dados.

Em uma apresentação visual dos vencedores do prêmio mercury ao longo dos anos e suas vendas no Reino Unido, os dados espaciais (o país) são aspectos secundários. Da mesma forma, uma lista das 50 cidades mais caras não tem que ser representada geograficamente – apesar das cidades, por definição, ficarem localizadas em um local no globo terrestre, a mensagem que estamos querendo transmitir é o custo de vida nestas cidades, um dado abstrato. Por isso, que a infoVis pode ser concebida como o novo abstracionismo. Talvez esse abstracionismo tenha algo em comum com a linguagem da mente (o mentalês), hipótese que afirma que conseguimos pensar de forma abstrata, apenas porque temos como base conceitos mais primitivos (físicos). Ou talvez tenha algo em comum com a sinestesia, a percepção através de modalidades sensoriais diferentes do estímulo.

Mercury Prize Winners

 

The Top 50 most expensive cities, 2009

Por outro lado, o termo visualização científica (sciVis) é aplicado para apresentações visuais de dados espaciais por meio do computador, dados científicos, que possuem uma dimensão espacial. O volume, a densidade, o peso, a altura, a posição, entre outros, são dimensões dos dados sendo apresentados. Os dados são medidas de objetos físicos, fenômenos da natureza ou posições em um domínio espacial, possuindo assim, uma apresentação geométrica. Aplicar essa apresentação geométrica como resultado do processo de mapeamento visual é o esperado do designer.

Visible Body

Um problema óbvio dessa terminologia é que os dados a serem apresentados numa visualização científica podem ser abstratos. A matemática, a biologia, a psicologia, entre outras diversas disciplinas científicas, lidam grande parte do tempo com dados abstratos, modelos e constructos que não possuem uma espacialização. Além disso, é óbvio que a informação científica é um tipo de informação. Logo, a apresentação de dados científicos deveria ser encarada como visualização da informação, quer os dados sejam abstratos ou espaciais. A separação entre infoVis e sciVis é baseada apenas na espacialização dos dados. Os termos poderiam muito bem ser substituídos por visualização abstrata e visualização espacial, uma separação similar entre a arte abstrata e a arte figurativa.

Variáveis independentes e dependentes (ou meios e fins)

Em experimentos científicos, usamos o termo variável independente como as mudanças que fazemos em alguma dimensão e variáveis dependentes como as mudanças em outra dimensão ocorridas devido às mudanças na primeira. As VIs (variáveis independentes) são manipuladas, enquanto as VDs (variáveis dependentes) são observadas. Consiste na velha relação causa e efeito, mas estes termos não são usados por terem implicações filosóficas demais, evitando assim, uma série de problemas.

O termo visualização é aplicada para apresentações visuais por meio do computador com o objetivo de aumentar a cognição (melhorar o desempenho em determinadas atividades). Nesse sentido, a visualização é um artefato cognitivo, um equivalente dos instrumentos ópticos. Da mesma forma que um carro permite nos locomover distâncias muito maiores e em menos tempo do que nossas pernas, os intrumentos ópticos nos permitem ver o que seria impossível ou muito difícil sem eles. Em ambos os casos, a tecnologia serve como uma extensão das capacidades humanas.

No caso dos artefatos cognitivos, eles permitem que aumentemos o nosso conhecimento ou compreensão. Embora haja uma intersecção com os intrumentos ópticos (já que o conhecimento ou compreensão é aumentado através da percepção), há uma separação entre eles (de forma muito similar à separação que ocorre entre os processos perceptivos e os processos cognitivos). A visualização se encaixa mais como um artefato cognitivo do que como um intrumento óptico.

O problema do termo visualização é o mesmo que o do termo experiência do usuário. Não projetamos uma experiência, projetamos o que possivelmente será experienciado. Não projetamos percepções ou conhecimentos, projetamos instrumentos ópticos e artefatos cognitivos. As variáveis que, enquanto designers (profissionais que trabalham com o conceito de ambiente construído), podemos manipular (variáveis independentes) são variáveis ambientais, não a experiência ou comportamento do usuário (variáveis dependentes). Claro que manipulamos as variáveis independentes com o objetivo de conseguir uma experiência ou um comportamento (e nesse caso, faz sentido falar de design para experiência ou design para o comportamento), mas elas não são as manipuladas, são o efeito que queremos alcançar. O meio que temos é o ambiente construído.

Como diz o Fabio Caparica:

Projetar Visualização, ñ existe. Projetar Experiencia, ñ existe. Projetar Pixel Perfect, ñ existe.

Considerações finais

A visualização (a visão como forma de melhorar o pensamento ou aumentar a cognição – ou simplesmente, melhorar o desempenho) está no outro lado da ponta (onde queremos chegar) e para isso, podemos manipular os meios (onde estamos e o que temos). Dessa forma, o termo poderia muito bem ser substituído por apresentação visual. Aliás, pelo que eu já li, é isso o que o Tufte e o Few (o deus e o Moisés da área) fazem, chamando o resultado de “visual display” e o processo de design da informação.

O termo visualization ou data visualization já é muito usado hoje na mídia por designers que se destacaram na área, como Ben Fry, Jonathan Harris, Manuel Lima, Jer Thorp, Moritz Stefaner, entre outros. Estes pegaram os termos criados na área acadêmica pela galera da velha guarda de infoVis – Ben Shneiderman, Stuart Card, Jock Mackinlay, entre outros. Estes, por sua vez, pegaram o termo visualização de sujeitos que vinham de uma área mais acadêmica ainda, como Bruce McCormick, Thomas DeFanti e Maxine Brown, entre outros, os quais usavam o termo Visualization in Scientific Computing, que acabou se transformando em sciVis. Por todo esse histórico do termo e sua disseminação, é improvável que vejamos alguma mudança na terminologia da área. Mas é bom ter em mente que assim como não projetamos interações ou experiências ou comportamentos (projetamos artefatos para interações ou experiências ou comportamentos), não projetamos visualizações, mas apresentações visuais. A visualização aqui é o objetivo, não o meio que temos. O meio que temos para manipular são as apresentações visuais, que se formos bem sucedidos, funcionarão como artefatos cognitivos.

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



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