Transclusão, Mashups e conteúdo embebido

Transclusão

Quando Ted Nelson inventou o termo hipertexto, ele tinha um modelo conceitual um pouco diferente da versão que conhecemos hoje, criada pelo Tim Berners-Lee. Uma das características principais do Projeto Xanadu (hoje chamado Transliteratura) e da sua versão de hipertexto era o conceito de transclusão.

Transclusão é um modelo de reutilização de conteúdo, onde parte de um documento é incluso em outro, por referência, não por duplicação do mesmo. Desta forma, o autor poderia citar parte de outro artigo, somente pegando a referência desta parte do documento, não necessitando copiar e colar ou duplicar esse conteúdo.
A idéia de Nelson era de como um documento hipertextual pode-se conectar à outros, não haveria a necessidade de repetição de conteúdo. Outra forma para evitar essa repetição, além dos links, seria a transclusão, ou seja, a inclusão de trechos de outros documentos.

transclusao

Para Nelson, o modelo de reescrever (ou copiar e colar) era uma limitação existente no papel, por exemplo, nas citações ou notas de rodapés de um à outro autor, onde o primeiro precisa reescrever todo o trecho do texto que lhe interessa. Como já vimos, a ênfase do Ted Nelson no hipertexto é justamente na superação do papel, ou seja, fazer o que era impossível fazer no papel. Para ele, o hipertexto não precisaria apresentar essa limitação, e para superá-la, criou esse conceito de transclusão.

Como a parte do outro documento seria incluso (transcluded – numa tradução porca: “transcluso”), ao invés de duplicada, sempre que houvesse alguma mudança nesta parte do documento original, o documento que faz a referência também exibiria essas mudanças (do mesmo jeito que ocorre com os includes de algumas linguagens server-side). Ainda neste modelo, o autor de um documento seria notificado quando alguém realizasse a transclusão de seu documento, e o autor que tivesse realizado a transclusão também seria notificado quando o documento original sofresse alguma transformação.

Esse modelo de reutilização de conteúdo pode, à primeira vista, parecer muito estranho para nós, se pensarmos que o autor do documento sendo referenciado estaria sofrendo roubo de banda, além de ter seu texto roubado por outros. Aí entram os conceitos de transcopyright e o de micropagamento.

Sempre que trecho de um documento fosse exibido em outro documento, a parte transclusa no documento teria uma referência (e um link) ao autor e aos copyrights. Desta forma, seriam mantidos os direitos reservados do autor. À esse modelo de copyright, Nelson deu o nome de transcopyright.

Outro conceito relacionado seria o de micropagamento (micropayment). Para inserir parte de outro documento em seu próprio, o autor teria que realizar um micropagamento para o autor do primeiro. Sim, é estranho e diferente do que nós estamos acostumados.

Transclusão no html

Há essa altura, os leitores que têm conhecimento de html já devem ter notado certas similaridades que algumas tags como img, iframe, object, embed possuem com o conceito de transclusão. Todas estas tags permitem capturar recursos (inclusive externos) de outros arquivos (através do atributo “src” ou “value”). Porém, as fontes as quais estas tags permitem capturar são apenas arquivos, não partes de arquivos, como no conceito do Nelson. Dessa forma, o html permite uma certa transclusão, mas reduzida.

Em documentos que usam XML, como Xpointer ou XSLT, essa transclusão pode vir a se desenvolver melhor, através das referências dos primeiro e das transformações do segundo.

Apenas à título de curiosidade, Josef Kolbitsch e Hermman Maurer, proporam uma nova tag no próprio html para a transclusão. A sintaxe seria:

<transclusion src="{url}"
atag="{tag}" aindex="{int}" aoffset="{int}"
ftag="{tag}" findex="{int}" foffset="{int}" />

Onde:
src: a URL do arquivo;
atag, ftag: as tags as quais a transclusão começa a termina;
aindex, findex: o índice numérico das tags as quais a transclusão começa e termina;
aoffset, foffset: em que caractere a transclusão começa e termina;

Um exemplo seria:

<transclusion src="http://www.nahipermidia.com/blog"
atag="h1" aindex="2" aoffset="0"
ftag="p" findex="9" foffset="29" />

Mashups

Mashups, como vocês já devem saber, são aplicativos web híbridos, ou sejam, aplicativos que combinam conteúdos de várias fontes. O aplicativo é responsável por integrar múltiplas fontes e gerar um novo conteúdo / funcionalidade para o usuário, que não poderia ser experimentado somente com uma das fontes. É aquela velha história da Gestalt: o todo é diferente da soma das partes. O termo veio do contexto musical, onde mash-up significa a combinação de várias músicas feitas pelo DJ.

Algo a se observar, é que nestes mashups, os dados não são copiados e colados em outra aplicação, mas são puxados diretamente dos terceiros.

Conteúdo embebido

Mais ao nível de usuário, está o conteúdo embebido. Se os mashups têm como premissa o conhecimento técnico em programação, o conteúdo embebido (que não precisa ser necessariamente através da tag <embbed>) está mais aproximado do conhecimento do usuário não programador. Essa técnica de embedar o conteúdo tem sido incentivada por diversos sites, como forma de compartilhar o conteúdo jogando-o em outro documento. O usuário simplesmente pega a referência do conteúdo que quer exibir sem seu site ou blog e joga lá. Não é necessário copiar e colar o arquivo. O conteúdo continua sendo puxado de terceiros.

O exemplo mais conhecido é a tag <embbed> do YouTube. O Flickr também dá essa opção de publicar em outros sites conteúdo armazenado lá, como pode ser visto aqui mesmo neste blog, no badge na navegação lateral na direita.

Remixabilidade

Todos esses fenômenos fazem parte de um maior, a cultura da remixabilidade, que, sem dar um ar acadêmico à coisa, pode ser visto como a prática quase que global de combinação de diversas fontes, e possível em grande parte graças à tecnologias digitais. Começou com a música, no começo dos anos 70, depois com a popularização dos computadores e digitalização da informação, foi para as imagens, e agora para qualquer tipo de dado (pro computador é tudo 0 e 1, não importa se imagem, som, texto ou vídeo).

Ao longo da história, diversas culturas que entravam em contato com outras também faziam uma espécie de remix. Um exemplo seria a mitologia romana, que foi largamente copiada e colada da mitologia grega (os deuses gregos se misturaram com a cultura romana e geraram os deuses romanos, como Baco, que antes, era Dionísio, e Mercúrio, que antes era Hemes). Porém o que chamamos de “cultura da remixabilidade” refere-se somente ao final do século XX e os tempos atuais, onde os remixes ocorrem em quantidade muito maior, graças às tecnologias digitais. A diferença é muito mais quantitativa do que qualitativa.

O Ted Nelson propôs a transclusão como um método para gerar remixes mesmo antes dos mash-ups feitos pelos djs. Isso porque no modelo conceitual de hipertexto que ele criou, o hipertexto seria o conjunto de nós (documentos ou lexias ou conteudos) conectados. Os nós em um sistema hipertextual, sendo conectados, não precisariam repetir conteúdos. Um nó poderia simplesmente se conectar à outro que possui o conteúdo relacionado ou poderia incluir outros nós, como na transclusão.

Na minha opinião, uma vantagem desse modelo seria diminuir o excesso de redundância que encontramos. Uma desvantagem seria ter que pagar só para referenciar ou citar uma fonte (como fazemos diversas vezes em blogs) ou ainda embedar conteúdo de outros sites, porém, poderia ser uma solução para os mahups. Se vai vingar essa proposta de transclusão, transcopyight e micropagamentos, eu não sei. O conceito parece ser interessante principalmente no contexto de mashups, por terem uma natureza maior, mas para outros casos, duvido muito.

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.


One comment

  1. August 11, 2010 at 2:15 pm

    Esclareceu algumas dúvidas minhas, valeu!


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