Tipos de relações Conteúdo x Interface

Hakim Bey, filósofo anarquista ontológico e criador do conceito de Zonas Autônomas Temporárias (TAZ), escreveu certa vez, que de forma geral, quando ocorre uma oposição de dois lados na Sociedade do Espetáculo, essa oposição é ilusória ou consequência de uma visão reducionista.

É dessa maneira reducionista que muitas vezes concebemos as relações existentes entre dois elementos de produtos de hipermídia: como uma oposição entre o conteúdo e a interface. Se procurarmos pelo conceito de sistema, através da cibernética e da teoria dos sistemas, encontraremos o seguinte:

Um sistema é um conjunto de elementos interconectados em que transformações ocorridas em uma das partes influenciará todas as outras. Vindo do grego o termo “sistema” significa “combinar”, “ajustar”, “formar um conjunto”.

Analisando um produto de hipermídia, seja lá qual for, não é difícil, percebemos que o mesmo podem ser encarado como um “conjunto de elementos interconectados em que transformações ocorridas em uma das partes influenciará todas as outras”, encaixando-se portanto, em nossa definição de sistema. Os elementos analisados aqui (conteúdo e interface) de um sistema apresentam relações entre si, que dificlmente, podem ser entendidos como uma oposição.

Algumas definições

Por conteúdo, entendemos a parte da mensagem (o que é transmitido na comunicação) composta pela informação e pela redundância. É o elemento o qual o usuário busca obter. Tanto texto, imagens visuais (não é um pleonasmo), sons quanto outros tipos de dados podem ser considerados como conteúdo de uma mensagem.

Por interface, entendemos o ponto de contato entre o “usuário” e um produto / sistema. É o elemento pelo qual o usuário tem acesso e relaciona-se com o produto. Podemos entender porque então, designers como Gui Bonsiepe, dizem que a interface (entendida de modo geral, e não apenas como interface gráfica de usuário) é o domínio do design.

Tendo definidos os dois elementos, podemos passar às relações entre os mesmos…

Interface como suporte do conteúdo

Se tomarmos como verdadeira a premissa de que o elemento buscado pelo usuário / interator em um produto de hipermídia é o conteúdo, não fica difícil entendermos a razão pela qual, nestes produtos, a interface funciona como um suporte do mesmo. O conteúdo é o elemento principal, e a interface deve ser de tal forma que auxilie o uso do primeiro elemento (fatores como usabilidade, legibilidade, acessibilidade, arquitetura da informação etc.). Não há oposição nestes casos, mas um elemento dando suporte ao outro. Um dos princípios de design, desde a Bauhaus é que a forma segue o conteúdo ou a função. Este princípio, obviamente, é aplicado aqui.

Podemos entender facilmente também a razão pela qual o W3C, “consórcio de empresas de tecnologia (atualmente cerca de 500 membros) fundada por Tim Berners Lee em 1994 para levar a Web para o seu potencial máximo”, recomenda o desenvolvimento em camadas (conteúdo, apresentação e comportamento, respectivamente). Não havendo suporte para a camada de apresentação e comportamento, o conteúdo permanece intacto, ainda que a relação do usuário com o mesmo altere-se em razão de mudanças na interface.

Nestes produtos, a interface é obviamente, considerada um elemento de apoio ao conteúdo, razão pela qual, até certo ponto, há uma rigidez nestas interfaces, pois mesmo que o conteúdo seja alterado (como é previsto em por exemplos, sites de conteúdos dinâmicos, como portais etc.), a interface, em grande parte, continuará a mesma. A interface é projetada então, considerando-se os aspectos macros do conteúdo, como assunto, tema, foco, entendendo-se aí, a importância de elementos como a arquitetura da informação.

O conteúdo como suporte da interface

De forma geral, encontramos tais produtos e dizemos logo de cara que eles “não têm conteúdo”. Obviamente, algum conteúdo, eles possuem, mas nestes casos, o conteúdo acaba tornando-se elemento de apoio à interface do produto, havendo então, uma inversão do primeiro tipo de relação. Não é difícil lembrarmos de n sites assim, e menos difícil ainda, lembrarmos que nós designers, na transição da mídia impressa para hipermídia, usamos e abusamos erroneamente da forma, como se este fosse o elemento procurado pelo usuário (desde longas animações em flash, até imagens mais do que pesadas).

Integração entre interface e conteúdo

Em outros tipos de produtos de hipermídia, encontramos uma relação de interdependência entre a interface e o conteúdo. Para designers / desenvolvedores habituados a seguirem os web standards diariamente (e é o que eu tento, apesar da porra do IE), desenvolvendo tudo em três camadas, isso pode parecer um pouco confuso ou mesmo heresia, porém… Há casos, nos quais a interface é o conteúdo experienciado pelo usuário / interator, de tal forma, que não há como separarmos um elemento do outro. O conteúdo é a interface e a interface é o conteúdo. Algumas obras de net.Art ou jogos online ilustram esse tipo de relação. Nestes casos, não há conteúdo distinguído da interface. Se não tivermos suporte às camadas de apresentação e comportamento, o conteúdo simplesmente se perde, uma vez que a apresentação e o comportamento da interface são o próprio conteúdo. Nestes casos, não faz sentido diferenciar o conteúdo como html, apresentação como css e comportamento como javascript + DOM. Se o navegador não dá suporte ao javascript ou não tem instalado o flash player, ou não dá suporte à imagens (como os navegadores textuais), o conteúdo não é acessível, a experiência não é vivida.

Cada produto / obra requer uma análise do tipo de relação desejada entre o conteúdo e interface, porém o que podemos perceber é que não há uma negação ou uma oposição entre os dois elementos. Há um suporte de um elemento para com o outro, ou mesmo uma integração entre ambos, porém em nenhum caso, vemos um elemento se opondo ao outro.

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



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