Pensamento projetual, resolução de problemas e psicologia – parte I: Skinner

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Uma pequena apresentação

B.F. Skinner foi um dos psicólogos mais populares (e controversos) do século XX. Deu origem à Análise do Comportamento – abordagem da psicologia que enfatiza o uso do método experimental de delineamento de sujeito único (diferente da maior parte dos experimentos realizados por outras abordagens da psicologia que geralmente empregam o delineamento de grupo) – e ao Behaviorismo Radical, a filosofia da ciência do comportamento (diferente do Behaviorismo Metodológico). Uma das principais ideias de Skinner era de que uma ciência do comportamento é possível (e necessária) e que os fenômenos internos (geralmente denominados como processos cognitivos) seriam não explicações para o comportamento observável publicamente, mas mais variáveis a serem explicadas pela ciência. Ao longo do tempo – e a partir dos inúmeros experimentos que realizava em laboratório, Skinner também chegou ao modelo de seleção por consequências, um modelo de causalidade para explicar o comportamento, diferente do modelo tradicional da física clássica (a mecânica, na qual o evento anterior A causa o evento posterior B), mas análogo ao modelo de seleção natural de Darwin.

Vale ressaltar que Skinner não fez experimentos especificamente sobre resolução de problemas, mas deu sua interpretação teórica-conceitual com base em suas muitas décadas de trabalhos experimentais. Veremos ao longos do próximos posts pesquisas experimentais específicas sobre resolução de problemas.

Problemas e resolução de problemas para Skinner

Para Skinner, um problema é uma situação na qual o indivíduo não tem momentaneamente disponível uma solução (uma ação) que produziria alguma situação desejável (uma condição reforçadora ou afastamento / impedimento de alguma situação aversiva). Isto é, existe uma ou mais respostas-solução que produziriam a situação desejável, mas no momento em que o indivíduo está na situação problemática essa resposta (a solução) não está disponível.

Como é mais do que óbvio, na concepção de problema, para Skinner, um problema nunca estaria na situação em si, mas na relação entre o indivíduo e a situação: uma situação pode se configurar como um problema para um indivíduo e não para outro e até mesmo como um problema para um indivíduo em determinado momento e não em outro momento. O que configura a situação como problemática é: a) a existência de uma situação desejável, e b) a indisponibilidade momentânea da solução.

Nessa concepção, a resolução de problemas seria qualquer comportamento ou conjunto de comportamentos que manipula ou altera as condições ambientais de forma com que torne a solução mais provável. Essa manipulação pode ser pública (como quando o indivíduo esboça possíveis planos ou esquemas ou altera a disposição dos elementos) ou privada (como quando o individuo pensa ou enuncia / enquadra o problema de formas diferentes), contanto que aumente a probabilidade do indivíduo chegar na resposta solução. Vale ressaltar que Skinner estabelece uma diferença entre a solução do problema e o processo de resolução de problemas. Enquanto a solução do problema seria a resposta efetiva (resposta terminal), que corresponde à resposta que produz a situação desejada, a resolução de problemas seria o processo de encontrar a solução (as respostas preliminares ou precorrentes, ou seja, que antecedem a resposta terminal ou a solução do problema propriamente dito).

Skinner ilustra uma situação problemática, sua solução e seu processo de resolução de problemas por meio do exemplo de um assassinato misterioso (imaginem um episódio qualquer de Sherlock Holmes):

“Um assassinato misterioso apresenta um problema se estamos fortemente inclinados a descobrir o assassino – a mostrar que um nome preenche consistentemente todos os requisitos da história – e não podemos fazer isto.”

Nesse exemplo, a emissão do nome (o resultado do processo de investigação do assassinato) que preenche todos os requisitos da história é considerada como a resposta que soluciona o caso, a resposta terminal. A situação se configura como problemática pelo desejo de saber quem é o assassino e a indisponibilidade momentânea do conhecimento do assassino. O processo de investigação do assassinato seria, nesse caso, o processo de resolução de problemas no qual o investigador manipula as variáveis ambientais (a cena do crime, interroga os suspeitos, muda seu próprio conhecimento e por aí vai).

 

Relações com o design

Levando em consideração a interpretação de Skinner sobre a resolução de problemas, faz certo sentido o discurso de Donald Schön em seu livro The Reflective Practitioner e dos autores influenciados por ele, incluindo o discurso mercadológico do Design Thinking, de que o sketching, a prototipagem e o “pensar com as mãos” – a prática reflexiva, uma “conversa reflexiva com os materiais da situação” – sejam partes características do design.

Em um trecho (que vamos revisitar várias vezes nessa série sobre resolução de problemas) do artigo Designerly Ways of Knowing, Nigel Cross (que se inclui com um dos autores influenciados pelo Schön) afirma:

“I identified five aspects of designerly ways of knowing:

  • Designers tackle ‘ill-defined’ problems.
  • Their mode of problem-solving is ‘solution-focused’.
  • Their mode of thinking is ‘constructive’.
  • They use ‘codes’ that translate abstract requirements into concrete objects.
  • They use these codes to both ‘read’ and ‘write’ in ‘object languages’.”

Se projetar é resolução de problemas e resolução de problemas é manipular o ambiente de forma a tornar mais provável uma solução, a geração de sínteses e a prática reflexiva – respectivamente, o segundo, terceiro, e quarto aspectos do que Cross afirma como sendo típicos do saber projetual – são práticas efetivas do design, pois de acordo com a concepção de Skinner, são formas de aumentar a probabilidade do designer encontrar uma solução para o problema que tem em mãos.

Um outro aspecto que merece ser comentado é que muitas vezes, ao pensarmos no processo de resolução de problemas, temos em mente processos encobertos / internos / privados. Para Skinner, o agir de forma privada (o pensar, o planejar) tem origem no agir de forma pública ocorrida no passado. As respostas privadas de resolução de problemas, embora tenham aparências diferentes das públicas, seriam as mesmas aprendidas publicamente e às quais ao longo do tempo passaram a ocorrer de forma privada. Já as respostas de resolução de problema do designer geralmente são públicas, o que talvez possa ser explicado se levarmos em consideração as demandas da tarefa: a) problemas mal definidos – o primeiro aspecto que Cross afirma como sendo típico do saber projetual – e que como afirmam diversos autores, desde Kolodner e Wills até Brian Lawson em seu clássico How Designers Think, dão origem a um processo de coevolução entre o problema e a solução; b) as soluções propostas de design (o projeto, no sentido de plano, esboço ou modelo) que precisam ser construídas e validadas socialmente pela equipe de projeto e os demais envolvidos, como usuários e clientes.

 

Uma observação

Embora não seja conhecido como designer, Skinner também projetou diversos artefatos para resolver diversos problemas práticos em seu dia a dia; problemas tanto científicos (como a criação da câmara experimental e do registro cumulativo; o que mostra uma relação bidirecional entre ciência e tecnologia, pois muitos dos avanços científicos no estudo do comportamento só foram realizados depois dessas invenções tecnológicas) quanto problemas de cuidados com filhos. Vale a pena dar uma lida no artigo Baby in a Box, onde o autor relata o processo de criação de um tipo diferente de berço (que ficou conhecido como Air Crib) com o objetivo de proporcionar mais conforto ao bebê e evitar trabalho da mãe do bebê.

 

 

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.


2 comments

  1. Alessandro
    September 23, 2015 at 11:12 am

    Alguns designers dirão que projetar pode ser resolver problemas, mas tbm pode ser ter uma visão diferente das coisas, conectar pontos que ninguém conectou ainda, bolar coisas inesperadas e úteis, criar ou aproveitar oportunidades.

    No final das contas, “resolver problemas” abarca tudo isso, pra mim. Porque dá a ideia de que uma situação atual não é satisfatória (por ser pouco reforçadora ou de alguma forma aversiva), e precisa ser substituída por outra situação mais interessante.

    Luciano, qdo vc vai mostrar o “case” do Air Crib? Décadas antes da indústria automobilística inventar essa história de “User Centered Design” o Skinner já fazia isso com centenas de donas de casa que testaram o produto com seus bebês. 😉

  2. September 23, 2015 at 11:53 am

    Eu mencionei (mas não discorri aprofundadamente, confesso) o Air Crib lá no final do post… O mais curioso dessa história, do meu ponto de vista, é que vindo do Skinner, eu esperaria um design persuasivo, uma engenharia comportamental, uma tecnologia comportamental, algum aparato operante, uma bugiganga comportamental e por aí vai. Mas pelo que eu entendi, ele só queria fazer a filha se sentir melhor. Coisa de pai coruja designer (e cientista, tecnólogo e por aí vai) 🙂


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