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Pensamento projetual, resolução de problemas e psicologia – introdução

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Tim Brown, CEO da IDEO, em seu livro Design Thinking: uma metodologia poderosa para decretar o fim das velhas idéias, distingue o design tradicional do pensamento projetual (design thinking) pelo primeiro ser restrito somente aos profissionais do setor da indústria de design (design gráfico, industrial, digital etc.), enquanto que o pensamento projetual é a aplicação do processo de design na construção de soluções  que sejam desejáveis para as pessoas, tecnicamente possíveis e rentáveis para o negócio. O pensamento projetual pode ser utilizado por qualquer pessoa que pense como um designer em áreas de negócios ou na resolução de problemas que tradicionalmente o design não cobre. O autor afirma:

“O design thinking começa com habilidades que os designers têm aprendido ao longo de várias décadas na busca por estabelecer a correspondência entre as necessidades humanas com os recursos técnicos disponíveis considerando as restrições práticas dos negócios. Ao integrar o desejável do ponto de visa humano ao tecnológica e economicamente viável, os designers têm conseguido criar os produtos que usufruímos hoje. O design thinking representa o próximo passo, que é colocar essas ferramentas nas mãos de pessoas que talvez nunca tenham pensado em si mesmas como designers e aplicá-las a uma variedade muito mais ampla de problemas.”

Do meu ponto de vista, os principais benefícios que essa proposta tem oferecido são:

  • Ensinar (ou melhor, aperfeiçoar) o pensamento projetual para profissionais que não são designers profissionais;
  • Ampliar o escopo de trabalho dos designers profissionais, não ficando mais restrito aos problemas tradicionais do design gráfico, industrial, digital etc.

No entanto, vale a pena distinguir entre pensamento projetual e o Design Thinking. O pensamento projetual é o repertório de resolução de problemas utilizado ao se projetar, enquanto o Design Thinking é o discurso mercadológico que defende o uso do pensamento projetual para problemas não tradicionalmente cobertos pela área de design como setor da indústria ou atividade profissional. Nesse meio campo, temos o design research, que abrange o design methodology and science of design, e que tem o design como objeto de estudo e de discurso.

Em um trecho do artigo Designerly Ways of Knowing (1982), que em 2006 virou um livro, Nigel Cross sintetiza o discurso sobre o que chama de “formas de saber projetual” (o embrião do Design Thinking):

“I identified five aspects of designerly ways of knowing:

  • Designers tackle ‘ill-defined’ problems. (fazendo referência ao Simon e depois Rittel)
  • Their mode of problem-solving is ‘solution-focused’. (fazendo referência ao Lawson)
  • Their mode of thinking is ‘constructive’. (fazendo referência ao Gregory, Simon, e March)
  • They use ‘codes’ that translate abstract requirements into concrete objects. (fazendo referência ao Christopher Alexander)
  • They use these codes to both ‘read’ and ‘write’ in ‘object languages’.” (fazendo referência ao Douglas e Isherwood)

Na minha opinião, um problema do Design Thinking, enquanto discurso mercadológico, é sua falta de embasamento no discurso científico sobre o pensamento projetual. Mais de 50 anos de pesquisa sobre design (design research) se passaram, mas pouco se conhece sobre o comportamento de projetar do ponto de vista científico por diversos motivos:

  • Na área de resolução de problemas, as pesquisas científicas focam principalmente nos problemas bem definidos, deixando os problemas mal definidos (ill-defined problems, que depois se tornaram os wicked problems do Rittel) meio que de lado. No The Psychology of Problem Solving, de 2003, diversos autores fazem essa classificação (problemas bem definidos x problemas mal definidos), mas deixam claro que, embora os problemas mal definidos sejam a maioria e mais importantes no dia a dia, esse é um assunto ainda pouco explorado nas pesquisas científicas. Enquanto as pesquisas sobre tomada de decisões avançaram pelos lados da incerteza (dando origem à Economia Comportamental), as pesquisas sobre resolução de problemas ficaram, até certo ponto, estagnadas nos problemas bem definidos.
  • Os problemas mal definidos são justamente os tipos de problemas que o design tende a resolver segundo o discurso sobre design (como podemos ver no primeiro aspecto definidor das “formas de saber projetual” defendido pelo Cross);
  • Diversos autores, como o Schön e os influenciados por ele, defenderam que o design deve ser um objeto de estudo não científico (science of design, como tinha proposto o Herbert Simon – diferente do design science, que defendia que o design devia adotar o método científico), mas do próprio design. Isso obviamente afastou ainda mais o discurso sobre design do discurso científico.
  • A própria indefinição (ou falta de fronteiras) do conceito de design dificulta que ele seja abordado cientificamente. Diversos autores, desde o Herbert Simon até o Victor Papanek, defenderam que design é uma atividade humana, e não restrita somente aos designers. Mas não ajudaram muito a distinguir entre esse tipo de atividade e outros tipos de atividade humana.

Uma hipótese especulativa que tenho acerca do Design Thinking é que ele se tornou uma proposta / abordagem tão bem aceita (e gerou hype e antihype, como em um processo de dialética mercadológica meio maluca) entre designers e não designers justamente por falta de alternativas. Ao procurar embasar ou melhorar suas práticas, o designer (ou não designer que tenta projetar algo) está servido somente do Design Thinking, o discurso mercadológico, que tem sido adotado até mesmo pelo discurso acadêmico sobre design. Falta um discurso científico sobre o projetar e o pensamento projetual, que seria justamente a síntese entre o hype e o anti-hype.

Para muitos autores (incluindo aí designers – thinkers ou não), projetar é resolução de problemas, principalmente problemas mal definidos, mal estruturados ou complexos. Pretendo iniciar uma série de posts sobre resolução de problemas, a partir do que conhecemos hoje sobre esse processo através da psicologia – que afinal é o meu background e tem o objetivo de estudar a mente e o comportamento, como o projetar – e do design research. Na minha opinião, a incerteza está para a tomada de decisão como o problema mal definido está para a resolução de problemas.  Assim, vamos explorar o que já conhecemos através de diversos autores e pesquisas sobre o processo de resolução de problemas, desde o mais básico (o que é problema e resolução de problemas) até chegarmos no que conhecemos hoje sobre resolução de problemas mal definidos e projetar.

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



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