Os recursos proporcionados pelo meio

Acho que cada meio de produção tem suas características próprias, que se relacionam com o que as pessoas que projetam e/ou usam esses produtos podem ou não fazer, e além de poder (no sentido de ser possível), influenciam (ou propiciam ou ocasionam) a probabilidade das pessoas fazerem. Cada meio de produção e consumo pode ser explorado mais ou menos adequadamente, de acordo com suas características.

  • Se eu quiser projetar algo que faça com que as pessoas possam receber recomendações de notícias com base em seu histórico, a mídia impressa, caracterizada por sua produção gráfica, não vai ser a escolha mais feliz, já que ela não tem como identificar e armazenar quais notícias eu li anteriormente, e por ser uma mídia estática, não tem como mudar o conteúdo.
  • Se eu quiser projetar algo pras pessoas poderem proteger seus pés enquanto correm ou andam, o processo de produção gráfica não vai ter tanto a oferecer quanto a produção industrial.
  • Se eu quiser projetar algo pras pessoas lerem e fazerem anotações, posso usar a produção gráfica, a produção digital ou a produção industrial, embora os 2 últimos meios talvez desperdicem recursos demais.

Transdução

Quando uma obra é adaptada em outro meio (por exemplo: um livro que vira filme, um filme que vira peça de teatro), ela sofre alterações justamente para explorar mais adequadamente os recursos existentes desse novo meio, e/ou compensar a ausência de recursos que existiam no meio original.

Pegando o exemplo do filme que virou peça de teatro: o ator tem que falar mais alto já que a platéia não tem como aumentar o volume do áudio; não é esperado que o público consiga enxergar tão de perto (não tem o zoom da câmera), por isso o ator tem que “exagerar” um pouco em suas expressões corporais; por outro lado, a proximidade física e/ou presença fornecida pelo contexto do teatro é um recurso que pode ser explorado, fazendo com que os membros do público possam participar ativamente da peça, ou possam sentir cheiros e por aí vai.

IMHO, essa adaptação ou transdução (a transformação de um tipo de energia em outra) é parte essencial quando uma obra é convertida de uma mídia para outra. E além desse contexto (da adaptação de obras), sempre que uma idéia surge, é necessário avaliar em qual meio ela seria mais adequada, ou quais recursos que o meio permite explorar para a idéia. As pessoas usavam cavalos para se locomover, e não leões (o termo não seria exatamente “sustentabilidade”, mas é por aí). 

Acho que um dos problemas de diversos projetos para internet surge simplesmente porque “pra quem tem um martelo tudo é prego”. Diversas agências ainda pensam em termos publicitários da mídia imprensa ou televisiva, fazendo sites estáticos, institucionais, que podiam ser um catálogo de produtos impresso ou uma propaganda na TV. Não que o rótulo “web 2.0” seja o mais acurado ou preciso, mas talvez possamos comparar os sistemas típicos da web 1.0 (e que muitas vezes, as agências continuam empurrando para os clientes) com os sistemas típicos da web 2.0.

Web 1.0:

  • catálogo
  • portal de notícias
  • e-commerce
  • institucional

Web 2.0:

  • wiki
  • torrent
  • blog
  • Podcasting
  • social bookmarking
  • social commerce / social shopping
  • rating site
  • sistema de recomendação
  • redes sociais
  • comparador de preços
  • fórum
  • plataforma de notícias enviadas pelos usuários
  • classificados
  • crowd-knowledge
  • financiamento coletivo
  • crowd-demanding
  • concorrências criativas
  • troca de produtos
  • doação de produtos
  • inovação aberta
  • crowd-labor
  • crowd-learning
  • crowdsourcing
  • compra coletiva
  • clubes de desconto
  • agregador de conteúdo de outros sites

Essa lista (assim como a debaixo) não pretende ser exaustiva, e nem dizer implicitamente que a internet chegou no auge com a Web 2.0, mas a partir de sistemas desse tipo, podemos encontrar alguns padrões que talvez permaneçam a respeito do uso apropriado dos recursos proporcionados pela internet .

Design para internet

Por misturar tanto os recursos computacionais, como os de rede, acredito que a internet seja um meio no qual o designer internético deve explorar certos recursos:

  • Participação e geração de conteúdo pelo usuário (usuário como produtor, não mais apenas como consumidor)
  • Global (possibilidade de qualquer um de qualquer lugar ser um usuário)
  • Multidão (possibilidade da interação – colaboração, cooperação ou competição – em massa)
  • Abertura ou fronteiras nebulosas (uso de recursos dos próprios usuários e de terceiros)
  • Distribuição das tarefas entre usuários x sistemas de acordo com suas características (cálculos, processamento serial, armazenamento quase ilimitado etc)
  • Relevância do relacionamento entre as informações
  • Uso de multimídia

Outros princípios básicos, mas que não são preocupações exclusivas do designer são a sustentabilidade financeira do projeto (“e essa porra vai ganhar dinheiro como?”) e a definição clara de objetivos (“o projeto é pra alcançar o que?”).

Ps. Sugestões de outros recursos que devem ser explorados pelo design para internet (design internético) são bem vindos.

Ps2. Acabei de inventar as expressões “design internético” e “designer internético”, como um analogia entre design gráfico – designer gráfico, e design industrial – designer industrial  =P Foi uma brincadeira e não vai se repetir (embora, se pá, a expressão seja mais precisa que “design da experiência do usuário” ou outras ladainhas da área). Bom dia, internautas do Vietnam!

 

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.


2 comments

  1. January 7, 2014 at 8:19 pm

    Opa, texto novo! o/

    Nesta sua reflexão, Lobato, como fica a mudança (produção) das características dos meios de produção? Afinal, eles foram criados, possuem características, mas não características fixas num sentido a-histórico. Em um exemplo bem ruim, penso que um Snapchat questiona a ideia de que ‘memória’ (de que tudo está sempre disponível) é uma característica inerente à internet, por exemplo.

    Pegando outro ponto, a ideia de ‘exagero’ não é uma característica do teatro, mas de algumas das formas de se fazer teatro… em outras, derruba-se a 3a parede, ou ainda se pensarmos no teatro de rua, o que é o espaço teatral, etc.

  2. January 7, 2014 at 9:26 pm

    Falaê Gonzatto!

    Então… Concordo que as características dos meios de produção mudam – acho que nenhuma característica ou significado é totalmente inerente em si só (com exceção das propriedades físicas que possibilitam ou restringem por questões óbvias filogenéticas), mas aprendido individualmente e culturalmente, principalmente no que se refere ao uso (aposto um danoninho que você também acha isso). Acho que o designer deve acompanhar essas mudanças, e /ou direcionar para os valores que acha mais éticos (e aí, entramos na esfera do conflito interno freudiano e da guerra externa entre classes marxista). Lembro que lá pelo começo da internet, uma das características mais marcantes dela era o anonimato; ninguém sabia se tava falando com um cachorro ou com uma humana que usava o nick de blondie22 =P Hoje, o Facebook pegou o papel que o OpenID almejava ter e uma caraiada de sites consegue não só tua identificação, mas quem são seus amigos, o que você gosta, e por aí vai. Ou seja, o anonimato não é mais uma característica predominante da internet (falando de forma anedótica, sem nenhuma evidência pra embasar essa afirmação).

    Achei bom o exemplo do Snapchat 🙂 Qual é a principal funcionalidade dele? Quebrar um “princípio” da internet, que é essa questão do registro permanente (ps. bem lembrado! vou colocar essa característica na lista de recursos lá em cima)(embora use a efemeridade, que muito provavelmente seja outro traço cultural dos nossos tempos e que a internet auxilia). Por mais que seja quebrar um princípio da internet, a exceção aí confirma a regra, pela proposta de valor dele ser uma negação ou superação dessa regra. Mas nesse exemplo, ainda acho que é algo válido, porque o aplicativo supera uma princípio, não o ignora, como sites institucionais ou de catálogo, que desperdiçam o potencial da internet, simulando a mídia imprensa.

    Ps. A noção do “exagero” no teatro foi exagero meu. Na real, seria a expressão corporal/facial maior do que na TV (por não ter zoom, pela platéia poder ficar longe etc).


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