Empresas como substitutas parentais

A dependência infantil

Comparado aos demais animais, o ser humano passa por um longo período de dependência. Quando criança, todas suas necessidades e desejos, se e quando satisfeitos, são satisfeitos pelos adultos, o que caracteriza essa relação pelas seguintes qualidades:

  • Recebimento: a criança não dá, apenas recebe do mundo.
  • Externo: a criança recebe tudo de fora.
  • Inferioridade: quem dá é algo maior e mais poderoso do que a criança.

A imaturidade emocional

Todos somos “racionais”, no sentido de conseguir refletir e agir em termos lógicos, de ver como as coisas funcionam, de enxergar as causas e efeitos, de saber que os benefícios têm seus custos, não só intelectualmente, mas também emocionalmente e intuitivamente. Mas para uma ou outra questão (geralmente, as que importam), agimos infantilmente. Para certos assuntos, fingimos não ver, fechamos os olhos ou fazemos de conta que as coisas não são como são.

Essas contradições entre consciência e ação (ou entre consequências de curto prazo x consequências de longo prazo) podem ser explicadas por fixações em estágios infantis, bloqueios, pela incapacidade de superar determinadas características infantis (que não eram necessariamente prejudiciais no momento, podiam até ser necessárias ou ser a única alternativa), devido à generalizações apressadas (conclusões errôneas) –  que na maioria das vezes, nem chegam a ser conscientes – aprendidas a partir das experiências infantis “traumáticas”.

Em Para Além do Bem e do Mal, Nietzsche diz que “A maturidade do homem consiste em haver reencontrado a seriedade que tinha no jogo quando era criança”. Essas generalizações apressadas e/ou errôneas são o que impedem o homem de amadurecer emocionalmente através das experiências, criando uma divisão entre consciência e ação.

Dessa forma, intelectualmente, somos forçados pelo mundo a amadurecer, nos desenvolvermos, e não pensarmos mais como crianças (passamos de uma perspectiva egocêntrica para uma perspectiva socializada). Mas em determinados assuntos, dependendo das experiências infantis de cada um, permanecemos emocionalmente imaturos, como uma criança que ainda quer apenas receber, que vê o mundo como sendo capaz de satisfazer suas necessidades, que se vê como dependente de forças superiores, que quer os benefícios sem os custos, que nega as relações de causa e efeito e se recusa a assumir as responsabilidades. Essa “sombra” nos faz recriar compulsivamente os problemas e situações infantis na esperança de corrigir a experiência traumatizante que gerou a generalização indevida. Porém, ao mesmo tempo essa estratégia (reprodução da situação passada, repetição contínua) tem seu fracasso óbvio, por criar as causas responsáveis pelo efeito já conhecido, criando assim um círculo vicioso: conclusão generalizada -> compulsão infantil a recriar e corrigir o passado, provocando o mesmo no presente -> confirmação da conclusão generalizada.

Entidades abstratas superiores

Uma das formas de reviver a situação infantil é se relacionar com entidades abstratas superiores (substitutos parentais), que existem somente por um acordo social (o senso comum), como deuses pessoais, corporações, times, nações, governos, e por aí vai; coisas maiores que as pessoas. Essas entidades abstratas superiores se tornam esperanças de fonte de satisfação e repositórios de afetos infantis, como dependência e submissão, ao mesmo tempo que mantém e reforçam a imaturidade.

Como toda empresa é uma máquina abstrata que tem a responsabilidade única de maximizar seus lucros, as pessoas que depositam na empresa suas figuras parentais, se esquivam da responsabilidade pessoal, podendo fazer coisas que nunca fariam como adultos maduros e conscientes: sugar o máximo de seus fornecedores e prestadores de serviço, cobrar o máximo de seus clientes, enganar seus investidores, sugar o máximo de seus colaboradores, e externalizar os custos para a sociedade em geral. Os colaboradores renunciam os próprios valores e propósitos pessoais para agir com base no lucro da empresa (o bem maior), tornam-se submissos à ordens de entidades abstratas superiores, cometem um tipo de sacrifício abstrato ao sacrificar a vida “pessoal” em nome do que é melhor para empresa, são adeptos de um altruísmo etéreo se esquecendo das pessoas que importam e priorizando uma pessoa não física (o sobrenatural, enfim, tornado real). Os proprietários também renunciam os valores pessoais, tornando-se dominadores, autoritários e sádicos, como canais para encarnação da empresa, com a missão de perpetuá-la numa dinâmica semelhante ao do gene egoísta (o egocentrismo é uma das características definidoras da infância). Claro que tudo isso só é possível também graças ao papel ou máscara (profissional) que as pessoas vão construindo ao longo da vida para serem aceitas socialmente e se defenderem contra os mesmos traumas que causaram as fixações infantis.

De certa forma, a empresa é uma criança: ela se caracteriza pelo desejo de receber. Ao mesmo tempo, ela possui os recursos de diversos adultos reunidos, e aos olhos infantis (de seus colaboradores, fornecedores, prestadores de serviço, proprietários, investidores, consumidores), super humanos.

As pessoas cobram as empresas para que sejam responsáveis socialmente, tenham ações sustentáveis, pensem no futuro, cuidem melhor delas; enfim, que sejam pais melhores. Uma alternativa seria deixarem de ser crianças querendo receber, e passarem a ser adultos responsáveis, capazes de dar também.

Uma das leis herméticas diz que “O que está em cima é como o que está embaixo. E o que está embaixo é como o que está em cima”. As formas de organização social e os modos de produção responsáveis pelo estado do mundo só vão melhorar quando as pessoas amadurecerem emocionalmente e agirem de acordo com suas consciências. As empresas são formas de organização similares a Frankensteins; as pessoas criam algo mais poderoso que elas e que depois as atacam. Não cabe aí criar melhores monstros ou cobrar que as criaturas sejam melhores, mas melhorar o criador.

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



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