O que aconteceu com a IHC?

Quarenta anos depois do seu nascimento, podemos nos perguntar: o que aconteceu com a IHC? E afinal… isso importa? Afinal, a IHC não saiu de cena?

Não vivemos na era da experiência, o conceito holístico que engloba todas ou quase todas subáreas do design digital?

Não é verdade que o campo da IHC, pertence à uma época anterior, quando o visual do useit era moderno e o Jakob tinha cabelo?

História e Proposta da IHC

A IHC nasce no início da década de 60, juntamente com as primeiras interfaces gráficas, como uma disciplina filha da ergonomia cognitiva (também conhecida como engenharia psicológica), ramo da ergonomia, que estuda a adaptação dos produtos e ambientes de trabalho aos processos psicológicos do ser humano. A IHC, tem então, a proposta interdisciplinar de estudar, e aplicar os conhecimentos gerados por estes estudos, acerca da interação do homem com o computador, para poder adaptar o último ao primeiro. Deste ponto de vista, a IHC estaria para o design de interfaces, assim como a ergonomia estaria para o design de produtos, sendo a base sólida onde o designer pode se apoiar.

Uma definição mais precisa da IHC é dada por Hewett, Baecker, Card, Carey, Gasen, Mantei, Perlman, Strong e Verplank:

Human-computer interaction is a discipline concerned with the design, evaluation and implementation of interactive computing systems for human use and with the study of major phenomena surrounding them.

Numa tradução livre e tosca:

Interação Homem-Computador é a disciplina precupada com o design, avaliação e implementação de sistemas de computação interativos para uso humano e com o estudo dos maiores fenômenos relacionados com os mesmos.

Evolução

Com a popularização dos PCs, a IHC começa a ganhar destaque no cenário acadêmico e de negócios. Tanto universidades, quanto empresas investem pesado em pesquisas para melhorar a interação da máquina com o homem. Afinal, se antes, apenas os geeks e/ou programadores usavam o computador, agora todo tipo de pessoa se tornava usuário e logicamente, a interface se tornava um diferencial, como a Apple percebeu logo cedo.

Mas embora as pesquisas ocorressem em ambos cenários (acadêmico e de negócios), pouco a pouco eles iam se afastando. Enquanto na academia o sistema de incentivos recompensava o conhecimento “puro” (o saber pelo saber) e a autoria, o mercado exigia o fazer e a anonimidade. Assim, a IHC, como área do saber, ficou restrita mais aos círculos acadêmicos, enquanto que o design, como prática profissional, ficou restrito ao mercado. Começa aí, uma longa falta de diálogo, que tem como consequências um saber separado do fazer e um fazer separado do saber.

Neste ponto, vale a pena lembrar a frase do Lacan: “a experiência sem o conceito é cega, e o conceito sem a experiência, vazio”.

O design das interfaces era feito com pouca base (e foi aí, onde os engenheiros de usabilidade aproveitaram para oferecer algo que o mercado precisava, mas não encontrava nas pesquisas básicas da IHC). As pesquisas eram feitas sem interesse por suas aplicações práticas. Até hoje, muitas vezes, essa separação estúpida se dá. Os pesquisadores, dizendo que o trabalho dos designers está errado e os designers depreciando o saber gerado pelos pesquisadores.

Da interação para o processamento interno

IMHO, a IHC se desviou de seu rumo justamente quando deixou de focar na interação entre os elementos envolvidos, para focar no processamento de informação por parte do ser humano. De certa forma, por nascer da fusão da ergonomia cognitiva com a ciência da computação e outras disciplinas, a IHC herda um modelo cognitivista, que enxerga a mente como um software que processa as informações e o comportamento como output deste processo, numa analogia fraca à teoria da informação e à informática.

Ora, se a disciplina estuda a interação entre o homem e o computador, focar em variáveis intervenientes, internas, cognitivas (conceitos já duvidosos), não seria o mesmo que focar na parte interna da máquina? E perdendo de vista a interação entre os dois?

A experiência e a interação

Vale a pena notar como todos os conceitos utilizados para descrever a experiência do usuário descrevem propriedades da interação homem-computador: encontrabilidade, usabilidade, desejabilidade, acessibilidade, utilidade, credibilidade e valor. Nesse sentido, a UX voltou às raízes da IHC, buscando compreender não o sistema, nem o usuário, mas as interações entre os dois. O que chamamos de experiência do usuário não é nada mais do que todas as interações do usuário com o produto / sistema / objeto e empresa. Voltamos à onde nos interessava e não devíamos ter saído nunca: na interação1.

O que aconteceu com a IHC?

Uma resposta é a de não há nada de errado com a IHC atual, obrigado por perguntar. A premissa inicial deste artigo está simplesmente errada. A IHC está viva, passa bem e nada “aconteceu” a ela.

De 10 a 14 de setembro, ocorre no Rio de Janeiro, o Interact 2007. Temos o IHC Brasil. Temos o BRCHI.
O design de interação, engenharia da usabilidade, arquitetura da informação e outras disciplinas que formam o UX Design, todas usam das pesquisas, conhecimentos e métodos gerados pela IHC.
Até mesmo na engenharia de software, a importância da IHC já é reconhecida, com a utilização de cenários e requisitos de interface, não funcionais.

Outra resposta que ofereço é que a IHC é menos discutida hoje em dia porque, na verdade, ela venceu o debate intelectual. A importância da interface como meio de trocas entre o usuário e o sistema já foi reconhecida pelo mercado e academia, sendo que todo “user experience designer”, em realidade, estuda e modela a interação homem-computador. O designer de interação, apesar de falar que vai além da IHC, se concentra na IMC, uma área de estudos da IHC. O arquiteto da informação, apesar de falar que organiza as informações para o usuário, se concentra na encontrabilidade e usabilidade, logo, em propriedades da interação entre o homem e o sistema. Assim como todos os demais tipos de designers que participam do projeto da interface de sistemas. A interação entre homens e sistemas de computadores nunca foi tão estudada como hoje. Mesmo que a chamemos de outro nome.

Notas de Rodapé

1 É interessante observar também, que ao longo da história da psicologia, ela deixou de ser a ciência da resposta, para se tornar a ciência da interação. A psicologia ambiental estuda a interação do homem com seu ambiente. A psicologia social estuda a interação do homem com outros homens. E por aí vai. O próprio comportamento, é definido pela Análise do Comportamento, como a interação entre as respostas do organismo e o ambiente.

2 A estrutura desse post foi claramente plagiada do texto “O que aconteceu com o Behaviorismo?“, do Roddy Roediger, presidente da American Psychology Society em 2004.

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



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