Engenharia comportamental: possibilidades

Introdução

A expressão engenharia comportamental (behavioral engineering) tem, pelo menos, 2 sentidos. O primeiro, adotado por Skinner lá pela década de 50, referia-se ao processo de aplicar os conhecimentos das ciências do comportamento na criação de tecnologias de modificação do comportamento (a.k.a. tecnologia comportamental).

O segundo sentido, adotado por Azrin, Powell, entre outros (e utilizado neste post), refere-se à uma abordagem de “tratamento” de problemas comportamentais que usa um dispositivo móvel no ambiente natural do indivíduo para apresentar consequências para um comportamento-alvo. O conceito por trás dessa abordagem é que o tratamento de problemas comportamentais geralmente ocorre em locais restritos, como consultórios ou hospitais, e por períodos restritos, com os profissionais envolvidos tendo a esperança de que as mudanças desejadas no comportamento ocorram no ambiente normal do cliente. Segundo essa concepção, a engenharia comportamental seria uma abordagem alternativa à este tratamento tradicional (o setting clínico), operando de forma contínua no ambiente natural do cliente, através de dispositivos que forneçam o arranjo de contingências necessário para a mudança comportamental (uma forma de trabalho terapêutico fora do consultório).

Esta abordagem tem os seguintes requisitos:

  1. Definição comportamental: definir o comportamento desejado ou indesejado em termos comportamentais específicos;
  2. Definição da captura: isolar algum aspecto essencial do comportamento que possa ser fisicamente rastreado pelo dispositivo (o input);
  3. Precisão da captura: a consequência apresentada pelo dispositivo (o output) tem que ser seletiva, de forma que seja ativada por todas as instâncias do comportamento desejado ou indesejado (sem falsos negativos), mas não por instâncias de outros comportamentos (sem falsos positivos);
  4. Definição da consequência: descobrir algum estímulo que é reforçador (aumente a frequência do comportamento quando apresentado de modo contingente ao mesmo) ou punidor (diminua a frequência do comportamento quando apresentado de modo contingente ao mesmo) que possa ser apresentado pelo dispositivo;
  5. Programar a contingência: programar o dispositivo para apresentar o estímulo como uma consequência para o comportamento-alvo;
  6. Definição do dispositivo portátil: escolher ou construir um suporte que capture o comportamento definido e apresente a consequência programada enquanto o indivíduo se mantém envolvido normalmente em suas atividades diárias;

Na prática, o procedimento é relativamente simples: basta especificar um comportamento-alvo e construir (ou escolher um) um dispositivo móvel que possa reagir seletivamente, apresentando uma consequência efetiva ao mesmo.

Exemplos:

Explorando as possibilidades

Uma das possibilidades mais óbvias para os designers explorarem a engenharia comportamental é através de apps para dispositivos móveis. É automático pensar em celulares, smartphones, tablets, etc, quando se fala em dispositivos portáteis. O curioso, é que grande parte dos trabalhos em engenharia comportamental do Azrin e colegas (ex: adesão ao tratamento médico, redução do fumo, melhora na postura, entre outros) se deu no final dos 60s, muito antes de sonharmos com computação pervasiva ou a inteligência ambiental. Se na época, os psicólogos já faziam verdadeiras gambiarras para criar os dispositivos operantes, hoje, com os recursos de computação física disponíveis, as possibilidades para os designers cresceram consideravelmente. Com o aumento do acesso às ferramentas de prototipação de hardware, os designers de interação têm mais oportunidades para ampliar sua área de atuação, desenvolvendo projetos que utilizem a computação física e o design computacional para a engenharia comportamental.

Além da abundância de meios, outra oportunidade de explorar a engenharia comportamental é através da ampliação de seus fins. Ela foi concebida originalmente para lidar com “problemas comportamentais“, normalmente denominados como psicológicos ou mentais, os mesmos tipos de problemas tratados em psicoterapia. Porém, além de poder lidar com tais problemas, é possível inverter a ênfase (assim como a psicologia positiva fez) para lidar com comportamentos que envolvam qualidade de vida, melhor desempenho nas atividades, satisfação, entretenimento, cognição aumentada ou nos que impactam diretamente problemas sociais de aspecto maior.

Enfim, o designer pode encarar a engenharia comportamental como um recurso útil para projetos de dispositivos móveis e computação física que envolvam “problemas comportamentais” ou pode encarar a engenharia comportamental como uma ampliação da relevância do seu trabalho, como um repertório útil em alguns contextos (dispositivos móveis, computação física – mas além dos “problemas comportamentais” tradicionalmente tratados em psicoterapia) para projetos que tenham como premissa o design para o comportamento.

Notas de rodapé

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



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