Cognição aumentada: propostas

Introdução

Um conceito muito usado nesse blog e que merece um esclarecimento ou mesmo um manifesto (talvez outro dia) é o de cognição aumentada (AugCog).

Em termos gerais, podemos entender a cognição aumentada como uma abordagem que tem como objetivo o desempenho melhorado através de qualquer meio necessário (uma ressalva: quando falamos em melhorar o desempenho, não estamos falando apenas de comportamentos observáveis ou mensuráveis, mas de emoções e experiências subjetivas também, assim como qualquer outro fenômeno psicológico). Pode ser considerada como uma especialização da área de Human Enhancement, que tem como objetivo ultrapassar temporariamente ou permanentemente as limitações atuais do corpo humano através de meios naturais ou artificiais.

Um adendo: quando falo “através de qualquer meio necessário”, incluo o design de interação, design da informação, arquitetura da informação, interação homem-computador, user experience design, design gráfico, design industrial, ergonomia, visualização, ciência da computação, engenharia de software, arquitetura, e quaisquer outras disciplinas técnicas e tecnológicas que trabalham com o conceito de “ambiente construído” e que podem ser usadas para alcançar este fim. Por isso, sintam-se à vontade para contribuir com idéias. Não é algo restrito à um clubinho de psicólogos e antropólogos.

Propostas de cognição aumentada

Mais especificamente, paralelamente ao campo da Inteligência Artificial, onde existe uma proposta da IA forte e outra fraca, a cognição aumentada também pode ter algumas propostas diferentes entre si. O sentido da palavra “força” aqui não é o de avaliar as propostas, mas sim, de dizer até onde suas ambições em melhorar o desempenho humano vão.

Cognição aumentada “fraca”

Nessa proposta, entendemos a cognição aumentada como o simples aumento do conhecimento. Podemos dividir o conhecimento em declarativo e procedural. O conhecimento declarativo consiste em “saber sobre”, enquanto o conhecimento procedural consiste em “saber como”. Nesse sentido, a cognição aumentada consiste em utilizar a tecnologia como meio para aumentar os conhecimentos das pessoas, e em última instância, melhorar os seus desempenhos em tarefas específicas. De modo científico, podemos avaliar se aumentamos ou não o conhecimento de uma pessoa através de seu comportamento, ou seja, se uma pessoa pode falar sobre algum assunto que não poderia anteriormente ou se ela consegue realizar mudanças em seu ambiente que não conseguiria anteriormente.

Essa proposta tem como ambição a melhoria de desempenhos específicos em tarefas específicas, e é, em certo sentido, um complemento da usabilidade como é concebida hoje. É também muito relacionada com a proposta de design for behavior.

Cognição aumentada “intermediária”

Essa proposta tem muitas similaridades com a proposta fraca, mas adiciona-se o elemento da generalização. Enquanto a proposta fraca tem objetivo melhorar o desempenho das pessoas em tarefas específicas, essa proposta tem uma ambição maior de melhorar não apenas respostas específicas, mas padrões ou disposições comportamentais em diversos contextos, ou seja, consiste no aumento do desempenho de forma generalizada e duradoura, não limitada apenas à tarefas específicas, mas incluindo um espectro maior de habilidades.

Cognição aumentada “forte”

Nessa proposta, entendemos a cognição aumentada como o aumento das capacidades dos processos cognitivos, como a atenção, memória, aprendizagem, percepção, entre outros, também de forma generalizada. O que difere essa proposta da intermediária é o seu foco nos aspectos cognitivos do ser humano. Cognição aqui é entendida como os processos que um organismo usa para organizar informação, tais como aquisição (percepção), seleção (atenção), representação (entendimento) e retenção (memória), e o uso dessas informações para guiar o comportamento.

Intervenções: aumento x terapia

Intervenções cognitivas podem ser de 2 tipos: aumento (enriquecimento ou amplificação) ou terapêutico. Uma intervenção que tem como objetivo corrijir uma determinada patologia ou um deficiência pode ser caracterizada como terapêutica, enquanto uma intervenção que tem como objetivo melhorar o desempenho de um sistema cognitivo, de outra forma que não a correção, pode ser caracterizada como aumento.

Enquanto grande parte da psicologia do século XX foi usada para fins terapêuticos, tendo como base a psicanálise, que se orientou pelo modelo médico (concebendo o comportamento como sintomas e as causas como patologias), a psicologia do século XXI pode contemplar não apenas a resolução de problemas psicológicos (o cuidado terapêutico), mas também melhorias nas funções psicológicas e na qualidade de vida (ver como paradigma a psicologia positiva). Os procedimentos podem ser os mesmos ou diferentes (embora, em ambos os casos, sejam aplicações do conhecimento científico disponível), mas enquanto a terapia tem o foco em corrijir aspectos considerados disfuncionais, a cognição aumentada têm o foco em melhorar aspectos considerados normais. Basicamente, o que muda é o contexto do “problema a ser resolvido” (correção x melhoria) e a perspectiva adotada.

Cognição aumentada e tecnologia

O termo cognição aumentada teve seu início associado com o início da ciência da computação. Muitos outros nomes foram utilizados como sinônimos: intelligence amplification (outro tipo de IA), machine augmented intelligence ou cognitive enhancement. Todos se referindo ao computador como meio para aumentar a inteligência e as capacidades do ser humano.

No início da ciência da computação, diversos autores, como William Ross Ashby, J.C.R. Licklider, Douglas Engelbart, viam o computador como uma forma de distribuir a computação entre o homem e a máquina, se aproveitando dos pontos fortes e reconhecendo as limitações de cada parte, para em conjunto, chegarem à decisões melhores, o que nesse sentido, pode ser encarado como o aumento da inteligência. Essa perspectiva gerou diversos frutos, um dos principais atualmente conhecido como cognição distribuída, que encara a cognição não como pertencendo ou internalizada dentro de uma pessoa, mas distribuída entre ela e o seu ambiente.

Grande parte da filosofia do design centrado no usuário divulgada pelo Donald Norman também tem o foco em dividir a carga cognitiva entre o usuário e o computador (Norman fala de representações internas e externas – ou o conhecimento na cabeça e no ambiente).

Há de se ressaltar porém, que a cognição aumentada não está limitada ao computador ou às tecnologias de informação. Diversos outros meios também podem ser empregados para esse mesmo fim. Desde o ensino, a educação, a alimentação, exercícios cognitivos, drogas (lícitas como o café ou ilícitas como a cocaína), estimulação magnética transcraniana, modificações genéticas e por aí vai.

A tecnologia ou a técnica pode ser usada para fins da cognição aumentada de diversas formas, e dessa forma, apoiar as diferentes propostas de cognição aumentada discutidas acima. Desde a simples distribuição da tarefas através do uso de um lápis ou um calendário, ou softwares que ajudem a memória prospectiva (agendas, gerenciadores de projetos), até processos mais avançados que dão suporte à atividades que não poderiam ser realizadas “naturalmente”, como é o caso de ferramentas de data mining e visualização, que juntos, tornam compreensíveis através da abstração uma quantidade enorme de dados que o sistema perceptivo humano não poderia apreender por si só.

Nesse sentido, é que Ben Shneiderman diz:

The purpose of visualization is insight, not pictures.

E pra quem me conhece, sabe que é nesse sentido que o meu interesse pela visualização vai.

Considerações

As 3 propostas de cognição aumentada tem como foco a melhoria no desempenho das pessoas. A tecnologia pode ser considerada um meio para isso. Como diz Dan Ariely, numa palestra do TED:

Quando se trata de construir o mundo físico, de certa forma compreendemos nossas limitações. Construímos passos. E construímos essas coisas que nem todos podem usar obviamente. Nós entendemos nossas limitações e construímos ferramentas para contorná-las. Mas por alguma razão, quando se trata do mundo mental, quando projetamos coisas como planos de saúde e aposentadoria e mercado de ações, de alguma forma nos esquecemos que somos limitados. Eu acho que se entendessemos nossas limitações cognitivas da mesma forma como entendemos nossas limitações físicas, mesmo que elas não nos pareçam tão óbvias, poderíamos projetar um mundo melhor. E isso, eu acho, é a nossa esperança.

Entendendo nossas limitações, podemos não apenas considerá-las quando vamos projetar alguma tecnologia (como é a proposta da usabilidade tradicional). Podemos também usar a tecnologia como forma de superá-las, e com isso aumentar o nosso desempenho e funções psicológicas, além de explorar melhor nossas potencialidades e virtudes. É nisso que consiste a cognição aumentada. E é desse modo que podemos considerar softwares como artefatos cognitivos.

Para saber mais

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.


6 comments

  1. Ana Carla
    May 22, 2010 at 3:15 pm

    Olá Luciano,
    Belo texto, uma ótima retrospectiva assim como os outros posts do blog. Foi uma ótima descoberta para mim!
    Gostaria de te perguntar que tecnologias poderiam ser aplicadas à cognição aumentada “intermediária”. É possível pensar na visualização como uma forma de a pessoa se comportar mais “racionalmente” durante uma tomada de decisão, ou estou extrapolando? Sendo de forma mais definitiva, como prevê a cognição intermediária.
    Fico aguardando uma resposta, abs

  2. Luciano Lobato
    May 22, 2010 at 5:44 pm

    Oi Ana,

    A grande diferença que eu vejo entre a proposta “fraca” e a proposta “intermediária” é a questão da generalização dos resultados, ou seja, tem uma certa estabilidade no desempenho, como na aquisição de uma habilidade. O sujeito acabaria “levando consigo” (aplicando em outros contextos) o que ele aprendeu, ao invés de só saber o que fazer na situação específica. Em terapia, por exemplo, os psicoterapeutas consideram a intervenção bem sucedida, quando há uma generalização dos resultados, e não somente quando há o desempenho desejado dentro do setting clínico. Invertendo os termos, um desempenho melhorado apenas no setting tecnológico, seria o objetivo da cognição aumentada “fraca”, enquanto o desempenho melhorado fora do setting tecnológico, seria o objetivo da cognição aumentada “intermediária”.

    Nesse sentido, as tecnologias que suportam uma aquisição de habilidades ao invés de somente um desempenho momentâneo podem ser concebidas como tecnologias aplicadas à cognição aumentada “intermediária”. Tem muita controvérsia ainda, mas acho que os jogos e a própria educação acabam ensinando (fazendo a pessoa adquirir determinadas habilidades) que se extendem além do próprio jogo ou contexto educacional. Nesse sentido, vejo a educação e os jogos, como tecnologias de cognição aumentada “intermediárias”.

    Em relação a visualização, não sei se pensaríamos nela como um meio para fazer as pessoas se comportarem mais “racionalmente”, simplesmente porque o “racional” é algo bem complexo de se definir… Acho que a nossa racionalidade (nossas inteligências) foi moldada para se encaixar apropriadamente dentro do nosso ambiente de adaptatividade evolutiva, mas não para o ambiente que vivemos hoje, ou seja, as incongruências entre o ambiente em que evoluímos e somos adaptados e o ambiente atual geram diversas discrepâncias entre o “racional de antes” e o “racional de agora”. Mas acho que podemos falar que o objetivo da visualização seria ajudar a pessoa a tomar a decisão certa, vendo e entendendo a estrutura dos dados, encontrando relações, tendências, padrões e confirmando ou rejeitando hipóteses sobre os dados. De certa forma, é um ajudar a se comportar de forma mais racional =)

    []s!


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