Behaviorismo para designers

Tenho visto em lista de dicussões que alguns profissionais da área UX / AI / DI concebem a psicologia como uma das principais fontes de conhecimento para suas prática. Ao mesmo tempo tenho visto algum preconceito contra certas abordagens da psicologia, principalmente o behaviorismo, mesmo sem que esses designers tenham um conhecimento mais aprofundado sobre o tema. Não culpo nenhum designer por isso (“nunca atribua à malícia o que pode ser atribuído à ignorância”); graduados em psicologia que fazem o curso por 5 anos, muitas vezes saem do mesmo sem saber exatamente qual abordagem se identificam mais, querem seguir ou acham que é a mais promissora. Se com 5 anos de curso, é difícil para um psicólogo decidir qual abordagem seguirá (ou contestará), é de se esperar que alguns meses de introdução à psicologia ou algumas leituras básicas não forneçam uma base sólida para que o designer possa adotar com segurança alguma abordagem da psicologia.

A psicologia é uma ciência relativamente nova. Como disciplina científica, independente (até certo ponto) da filosofia, ela possui pouco mais de 100 anos. De lá pra cá, surgiram várias escolas ou correntes de pensamento: estruturalismo, funcionalismo, psicanálise, cognitivismo, gestalt, fenomenologia, sócio-histórica, e o behaviorismo. Essas abordagens possuem diferentes concepções acerca do objeto e método de estudo da psicologia (ou mesmo, se fazem parte da psicologia ou se são disciplinas independentes: a psicanálise se postula como uma disciplina paralela à psicologia, alguns analistas do comportamento propõe o mesmo).

Não é a intenção desse post atacar uma ou outra abordagem, mas desfazer algumas compreensões rasas ou mal entendidos acerca do behaviorismo que são ditos frequentemente por designers. Ou seja, bancar o advogado do diabo.

Mitos sobre o behaviorismo

Mito #1 O behaviorismo é uma ciência

O behaviorismo radical é a filosofia da ciência do comportamento, enquanto que a Análise do Comportamento é a ciência do comportamento propriamente dita. O behaviorismo radical rejeita as noções mentalistas de que o comportamento pode ser explicado através de mecanismos ou processos mentais, afirmando que as variáveis comportamentais devem ser investigadas através dos métodos das ciências naturais (principalmente experimentais, porém, não exclusivamente), buscando relações funcionais entre os eventos comportamentais e ambientais (as “causas” de um evento não podem ser encontradas procurando apenas dentro do sistema sendo estudado, mas sim, em suas relações com o ambiente em que se insere). Mas diferente da noção de ambiente divulgada no senso comum, ambiente aqui, é entendido como tudo que está externo aos eventos comportamentais e que tem relação com os mesmos (o ambiente, o conjunto de estímulos que influenciam os comportamentos, não é exterior ao organismo, mas às respostas, sendo que parte do ambiente e das respostas, encontram-se dentro da pele do organismo, eventos internos ou encobertos).

Mito #2 O behaviorismo atual é o mesmo de 1913

Existiram pelo menos 3 behaviorismos. O que os mesmos têm em comum é a afirmação de que é possível uma ciência do comportamento. Porém, os 3 divergem entre si acerca do que seja ciência e comportamento.

O Behaviorismo Metodológico (também denominado como behaviorismo clássico): fundado por Watson em 1913, com o seu artigo “A Psicologia como um comportamentista a vê”. Influenciado pelo fisiólogo russo Ivan Pavlov, e por suas descobertas acerca do condicionamento respondente, postulava que o objeto da psicologia deveria ser o comportamento observável e que os processos mentais deveriam ser deixados de fora da psicologia, por não poderem ser estudados de forma objetiva. Comportamento, nessa concepção seria qualquer alteração (geralmente nos sistemas glandular e motor) observável em um organismo que fosse uma resposta a um estímulo específico. Essa abordagem também ficou conhecida por psicologia S-R ou da contração muscular. A maior parte das críticas feitas ao behaviorismo atual (o radical) na verdade referem-se ao behaviorismo metodológico, que deixou de ser uma corrente da psicologia há décadas, superado por outras abordagens.

O Behaviorismo Mediacional (também denominado como neobehaviorismo): que teve como principais representantes Edward C. Tolman e Clark L. Hull. Postulavam que a concepção estímulo-resposta não era suficiente para o estudo do comportamento complexo e a necessidade de variáveis intervenientes ou mediacionais ou internas (cognitivas ou neurofisiológicas). Esta abordagem ficou conhecida como S-O-R, onde o O seria o organismo e suas variáveis mediacionais, até então ignoradas ou concebida como uma caixa preta pelo behaviorismo metodológico. Esta abordagem não morreu totalmente, mas sofreu algumas transformações (embora, ninguém se denomine behaviorista mediacional, essa proposta deu origem indiretamente a psicologia cognitiva atual).

O Behaviorismo Radical: este é o behaviorismo atual, o que sobreviveu. Fundado por B.F. Skinner, postula que o comportamento é a interação entre o organismo e seu ambiente. Diferente do behaviorismo metodológico, afirma que os processos internos são objetos legítimos de estudo científico e que os mesmos consistem de eventos físicos e naturais (são comportamentos), rejeitando qualquer dualismo mente-corpo, e concebendo desta forma, a psicologia como uma ciência natural, um ramo da biologia, já que somente seres vivos se comportariam. Com o surgimento deste behaviorismo, ficou explícito a diferença entre a filosofia da ciência do comportamento (o behaviorismo) e a ciência do comportamento (Análise do Comportamento), assim como o seu principal braço de pesquisa, a Análise Experimental do Comportamento, que como o próprio nome já diz, utiliza-se principalmente do método experimental.

Mito #3 O behaviorismo não considera “processos internos”, como criatividade, inteligência, pensamento, emoções etc.

O behaviorismo metodológico realmente considerava esses processos internos como epifenômenos ou como fora do escopo científico por não serem publicamente observáveis. Porém, o behaviorismo radical considera os eventos privados ou internos como objeto legítimo de investigação científica. A diferença em relação a psicologia pop ou internalista é que os analistas do comportamento, ao invés de considerarem os eventos internos ou privados como causas (variáveis indepentes ou manipuladas) do comportamento público (variáveis dependentes ou observadas), consideram estes como mais comportamentos, e assim, como mais eventos a serem investigados e não causas do último. A grande objeção ao internalismo (seja ele mentalista ou fisiológico) é a de que o mesmo produz pseudo-explicações (ou ficções explanatórias), mas não investigam as condições suficientes e/ou necessárias para o comportamento (exemplo: afirma-se que o sujeito comportou-se de forma tímida devido à sua timidez ou porque ele tem um traço de personalidade tímido, porém, o dado observado foi o sujeito se comportando de forma tímida; o constructo de timidez aí, não acrescentou nada ao dado observado, apenas criou uma pseudo-explicação que satisfez a curiosidade temporariamente, mas se quisermos prever ou produzir comportamento tímido, não temos como).

As emoções são consideradas amplamente pela Análise do Comportamento, sendo concebidas geralmente como eventos comportamentais privados e respondentes (eliciados por eventos ambientais), mas com correlatos públicos.

A grande mudança do internalismo para o comportamentalismo é que enquanto o internalismo transforma os verbos ou adjetivos em substantivos que têm o status causal do comportamento público, o comportamentalismo concebe os eventos internos como ações ou respostas, continuando como verbos: pensar, sentir, imaginar, fantasiar continuam sendo comportamento a ser explicado, não explicações do comportamento.

Mito #4 O behaviorismo é positivista

O behaviorismo metodológico foi muito influenciado pelo positivismo lógico ou neopositivismo, tomando como objeto de estudo científico apenas o observável. Porém, o behaviorismo radical se diferencia do metodológico por considerar qualquer comportamento como objeto de estudo da psicologia. A questão da acessibilidade do comportamento (se é privada ou pública) não delimita a ciência, apenas traz dificuldades metodológicas.

Mito #5 O behaviorismo é reducionista e/ou mecanicista

O behaviorismo radical postula um determinismo probabilístico, diferente do mecânico da física clássica. Skinner, após anos de experimentos em laboratório, e da consolidação do princípio de reforçamento operante em diversas espécies (inclusive humanos), afirma que o comportamento é multi-determinado e adota como modelo causal a seleção por consequências, muito parecido com o modelo causal da seleção natural (consiste mais em uma explicação histórica do que numa explicação mecânica). Este modelo afirma que o comportamento é fruto de 3 níveis de seleção: filogenético, ontogenético e cultural. Como influências filosóficas, o behaviorismo radical adota o pragmatismo, o contextualismo, o fisicalismo, entre outros.

Mito #6 O behaviorismo não trata de questões como símbolos e linguagem

Skinner abordou o comportamento verbal já em 1957, porém de forma interpretativa, extrapolando os princípios comportamentais encontrados em laboratório para a linguagem. De lá pra cá, inúmeras pesquisas experimentais sobre o assunto têm sido realizadas e o paradigma de equivalência de estímulos é um modelo do significado aceito por quase todos os analistas do comportamento.

Mito #7 O behaviorismo morreu

O behaviorismo metodológico, até onde eu saiba, realmente morreu e eu não conheço nenhum psicólogo que adote essa proposta. O behaviorismo mediacional deu origem ao cognitivismo (que embora postule investigar os processos cognitivos, assim como as pesquisas comportamentais, utilizam variáveis comportamentais como variáveis dependentes, o que transforma as pesquisas cognitivas compreensíveis para os analistas do comportamento e as pesquisas comportamentais compreensíveis para os psicólogos cognitivos; embora possam discordar das interpretações dos resultados, pelo método ser experimental, pelas variáveis dependentes serem medidas comportamentais e pelas variáveis independentes serem mudanças no arranjo ambiental, podem dialogar entre si). O behaviorismo radical continua vivo e saudável até hoje, e embora não seja a abordagem predominante na psicologia (quando fiz faculdade, a abordagem predominante era a psicanálise; atualmente é a cognitiva), continua produzindo um número imenso de pesquisas básicas, aplicadas, conceituais e extendendo suas fronteiras para áreas de estudo mais amplas que o comportamento individual (problemas sociais).

Mito #8 O behaviorismo é uma psicologia S-R

O behaviorismo metodológico realmente era uma psicologia S-R, composta somente por reflexos e condicionamentos respondentes (os quais são princípios de comportamentos respondentes – eliciados – válidos até hoje), porém o paradigma predominante da Análise do Comportamento é S-R-S ou A-B-C (Antecedentes-Comportamento-Consequências). Desde a descoberta experimental do princípio de reforçamento operante, ficou claro que as consequências ou eventos subsequentes ao comportamento alteram a probabilidade futura de membros da mesma classe de respostas operantes (comportamentos emitidos, não eliciados). Embora o paradigma S-R ainda seja utilizado para os comportamentos respondentes, a maior parte das análises realizadas para comportamentos complexos, utilizam a tríplice-contingência ou a contingência de 4 ou mais termos.

Mito #9 O behaviorismo é uma psicologia animal

Os primeiros experimentos realizados por analistas do comportamento tinham como sujeitos experimentais “infra-humanos”, como pombos, ratos e cachorros (que continuam participando de pesquisas até hoje, assim como em outras áreas da biologia). Depois, a variedade de espécies foi aumentando gradualmente, com experimentos sendo realizados com humanos antes dos anos 60s. Cientistas consideram humanos como produto da seleção natural, assim como outras espécies; partindo da premissa de continuidade entre as espécies, não há razão para estranhar que diversas pesquisas básicas sejam realizadas com sujeitos “infra-humanos” antes de serem realizadas com humanos. Atualmente são realizados experimentos com humanos e “infra-humanos”.

#10 O behaviorismo é uma tentativa de controlar as pessoas

Como veremos mais abaixo, uma das premissas da ciência é que os eventos sendo investigados não são totalmente aleatórios, mas possuem padrões, leis ou princípios que podem (ou não) ser descobertos (determinismo). Descartando a noção de livre-arbítrio, vemos que o controle está presente em todo fenômeno comportamental. A questão não é se o controle existe ou não; a ciência parte do pressuposto de que tal controle existe, independentemente de agirmos sobre esse controle ou não. O behaviorismo radical e os Analistas do Comportamento, cientes de que o livre-arbítrio não é uma opção, tentam encontrar tais princípios ou leis comportamentais e formas mais satisfatórias de controle comportamental para todos os envolvidos (reforçamento positivo no lugar da coerção – por isso, a imagem de Laranja Mecânica não faz sentido nenhum no contexto do behaviorismo radical). O behaviorismo radical, embora não tenha ligações estreitas com o socialismo (isso é um tópico controverso, uma vez que o próprio Skinner descreveu sociedades utópicas que se utilizariam os princípios de reforçamento positivo), tem preocupações de como a tecnologia comportamental, gerada a partir das pesquisas básicas ou aplicadas são utilizadas para manter ou alterar o status quo.

#11 O behaviorismo subestima as práticas culturais

Uma das principais ênfases do behaviorismo radical e da Análise do Comportamento é o nível cultural e a noção de contingências arbitrárias ou construídas (na verdade, muitas vezes, o behaviorismo metodológico foi acusado de negligenciar os fatores filogenéticos, atribuindo muitas vezes quase todas as causas do comportamento à aprendizagem cultural, como diversas outras abordagens de século passado – o behaviorismo radical equilibrou os pesos entre os fatores, postulando que o comportamento é produto dos 3 níveis de seleção, tanto filogenéticos, ontogenéticos e culturais). Por contingências construídas, refiro-me à todas as contingências que não são naturais ou inatas, mas que são construídas a partir de práticas culturais. A noção de ambiente construído, central para o design, está estreitamente relacionada com o conceito de contingências construídas. Na realidade, Skinner disse certa vez, que a maior contribuição da Análise do Comportamento poderia não ser a mudança do comportamento individual, mas de práticas culturais, através de planejamentos culturais e experimentos sociais.

Critérios para escolha de uma abordagem

Abordagens, modelos, teorias e sistemas na psicologia existem aos montes. Embora não exista uma definição precisa ou um consenso sobre o que é a ciência, podemos diferenciar astronomia de astrologia e química de alquimia. A ciência, mais do que um conjunto de conhecimentos acerca de algo, é uma forma de se conhecer algo. Alguns critérios normalmente aceitos e que, na minha opinião, qualquer designer deveria adotar para escolher uma abordagem ou mesmo ler criticamente um artigo científico são:

Sobre os pressupostos do conhecimento científico

  • Determinismo: é a premissa filosófica de que os eventos são não aleatórios, mas governados por algumas leis ou princípios.
  • Empirismo: é a premissa filosófica de que o conhecimento deve ser adquirido através da experiência. A ciência baseia-se mais no método indutivo do que no método dedutivo.
  • Falseabilidade: é a capacidade de uma afirmação poder ser refutada através da experiência.

Sobre os objetivos do conhecimento científico

  • Descrição: descrever especificamente quais são as variáveis sendo pesquisadas é importante. Assim como o sentido de força no senso comum não é a mesmo para a física, diversos termos emprestados do linguajar diário já estão “contaminados”, e quando usados em pesquisas, devem ser descritos de modo detalhado para não gerar interpretações ambíguas.
  • Explicação e predição: descrever os fenômenos sendo investigados é um pré-requisito de qualquer pesquisa científica; explicar porque ele ocorreu é o próximo passo, e com isso, podemos prever quando estes fenômenos ocorrerão.
  • Aplicação: se explicarmos e prevermos quando ou porque os eventos ocorrem, podemos produzí-los ou impedí-los. A aplicação do conhecimento científico não é nada mais do que a tecnologia. Para o designer, essa é uma questão crítica: aonde todo esse falatório influencia alguma decisão de projeto?

A abordagem que o designer utiliza descreve, explica, prediz e pode ser aplicada ao comportamento (ou atividades ou cognições ou processos semióticos) do usuário? A Análise do Comportamento (e sua filosofia, o behaviorismo radical) tem se mostrado fonte útil para designers e outros profissionais que lidam com o comportamento humano. Outras abordagens e teorias como a semiótica, gestalt, cognitiva, teoria da atividade também podem ser, se satisfazerem os critérios acima mencionados, para dar embasamento científico às práticas do designer e com isso, o design ser realizado com base em evidências, e não achismos. Caso acreditem que essas abordagens não cumprem os critérios acima, sejam bem vindos ao behaviorismo radical e à Análise do Comportamento. É uma viagem tortuosa, assim como aprender qualquer disciplina científica que desafie o senso comum e as concepções automatizadas do dia-a-dia, mas o benefício pode ser enorme para os projetos.

Para saber mais:

Ps. Correções, críticas embasadas, mais mitos a serem derrubados e xingamentos são bem vindos.

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.


3 comments

  1. August 3, 2011 at 2:06 pm

    Aê, meu caro!

    Que bom que alguém tenta escrever sobre Behaviorismo com linguagem acessível/compreensível para o grande público. Parabéns!

    Qto ao mito #7, sabe o que eu penso? Que dá a impressão que ele morreu pq, depois da suposta “Revolução Cognitiva” (1970, creio), o Behaviorismo se entrincheirou no meio acadêmico, que é o único lugar onde seu linguajar rebuscado encontrou reforço. As pesquisas ficaram cada vez mais Metafísica, e até a pesquisa Básica e Aplicada ficou por demais microscópica, pouco prática.

    Mas, de 2000 pra cá, vemos nos EUA uma retomada do Behaviorismo, via terapia para autistas. COmo tudo que acontece naquele país demora uns 10 anos para rolar aqui, então acho que a década de 2010 verá um “retorno do Behaviorismo”.

    E acho que esse retorno será fortemente promovido por algo que vai quebrar o mito #11: cada vez mais a turma comportamental presta atenção em “práticas culturais” e afins (B. J. Fogg que o diga 😉

    Abraço e boas práticas para vc!


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