Auto-ajuda, tratamentos DIY e ciência

 

“Deus ajuda aqueles que ajudam a si mesmos” – Benjamin Franklin

Contra a auto-ajuda

Atualmente, o setor de auto-ajuda é encarado com desdém, por razões que algumas considero legítimas, outras ilegítimas:

  1. Fins: se auto-ajudar implica assumir que a pessoa tem problemas, que a vida não é perfeita, que ela quer melhorar ou se desenvolver em algum aspecto, o que implica em orgulho ferido e vergonha, como quando a pessoa vai procurar algum tratamento terapêutico que não seja auto-aplicado (contexto no qual, muitas vezes, as pessoas ainda têm vergonha).
  2. Meios: muitas vezes, os métodos são duvidosos, indo pros lados da “medicina alternativa”, esoterismo, pensamento positivo, terapias holísticas e outras práticas que ainda não mostraram evidências de eficácia.
  3. Conflito: os prestadores de serviço que têm suas práticas baseadas em evidências científicas e que são concorrentes dos profissionais de auto-ajuda têm um óbvio interesse financeiro de que as pessoas contratem seus serviços, ao invés de se auto-ajudar.

Dos motivos mencionados acima, creio que apenas o segundo é uma preocupação legítima.

Querer uma vida melhor, se desenvolver como pessoa, explorar melhor seus potenciais, resolver os próprios problemas são características positivas; de fato, na minha opinião, seria preocupante se a pessoa não quisesse tais coisas.

Desde o início da internet, as gravadoras tiveram suas receitas prejudicadas pela nova forma de distribuição de músicas. Por causa disso, atacaram juridicamente os responsáveis pelos programas que davam essas novas capacidades aos usuários (ex: Napster), e depois chegaram até mesmo a atacar juridicamente os usuários que baixavam música online. Todos vemos o crescente discurso financiado pelos detentores dos direitos de uso sobre a pirataria. Acho que é fácil ver aí um conflito de interesses óbvio entre o setor e os interesses das pessoas, sendo que dá pra descartar fácil o discurso das gravadoras sobre pirataria.

Métodos

A auto-ajuda pode ser definida por 2 características:

  1. A finalidade: se ajudar, melhorar, se desenvolver, resolver os problemas pessoais (o que venhamos e convenhamos, é um espectro imenso de assuntos).
  2. O meio: é o próprio indivíduo que tem o problema ou que quer se desenvolver que se aplica o tratamento ou o método, dessa forma caracterizando um tratamento DIY (ou life hacking), como oposto ao aplicado por um terceiro ou prestado de serviço.

Das razões contra a auto-ajuda mencionadas acima, a preocupação com os métodos é legítima. Por mais que o objetivo seja bem intencionado, se só soubermos onde queremos chegar, mas não soubermos os caminhos para se chegar lá (ou pior, se nos derem indicações que não nos levam pra esse destino), o esforço terá sido em vão, e nesse caso, é melhor buscar profissionais qualificados que realmente saibam o caminho, ao invés de tentar por si só com orientações erradas.

Quanto mais a auto-ajuda for baseada em pesquisas científicas, e seus métodos forem validados através do método científico, menos na Idade das Trevas ela estará, livre de superstições e crendices populares. Como um exemplo que demonstra que o que define a auto-ajuda é mais seus fins do que seus métodos “alternativos” desacreditados pelos cientistas, Steven Hayes (cientista comportamental, co-criador da Teoria dos Quadros Relacionais e da Terapia de Aceitação e Compromisso) publicou um livro denominado “Saia de Sua Mente e Entre em Sua Vida”, que tem o objetivo do próprio leitor se auto-ajudar através da sua abordagem terapêutica, podendo dessa forma, ser classificado como literatura de auto-ajuda.

A auto-ajuda (assim como as medicinas e terapias alternativas) têm os fins nobres: o desenvolvimento pessoal, o autoconhecimento, o bem-estar, a qualidade de vida; a ciência tem os melhores métodos: a falseabilidade e a experimentação.

Os autores de auto-ajuda deveriam procurar, na medida do possível, tornar a auto-ajuda científica, buscando a ajuda de cientistas e do método científico. E os cientistas, ao invés de querer só desacreditar os autores de auto-ajuda, poderiam ajudar os que querem fornecer ferramentas para as pessoas se auto-ajudarem.

Nota de rodapé – a ciência é o único caminho?

O método científico é uma das mais valiosas conquistas do raciocínio humano. Quanto mais nos embasarmos na ciência e expormos nosso conhecimento à prova, mais estaremos certo de não estarmos nos enganando (o que fazemos com imensa maestria, com ou sem ajuda dos outros).

Porém, o método científico é uma forma de conhecimento relativamente nova, e nem de longe pode ter a presunção de ser considerada a única forma válida de conhecimento ou de ter adquirido todo o conhecimento possível, sob o risco de cumprir o papel que era da igreja católica na Idade Média, e estabelecer uma nova inquisição. A religião, a arte, a filosofia, o misticismo e a experiência pessoal são formas alternativas de conhecimento que não podem e nem devem ser descartadas.

 

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



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