Até que ponto incluir é adaptar e consumir?

Estava eu pensando com os meus botões sobre o discurso da inclusão digital. A primeira vista, até intuitivamente, parece ser o mais óbvio a se fazer. Incluir todos os cidadãos na sociedade da informação, dar condições para que todos comprem hardwares e softwares, dar educação para que eles possam usar estas tecnologias com eficiência, e com isso, tenham acesso à super via da informação. Afinal, isso beneficiaria o próprio indivíduo, não é mesmo? É o que todo o discurso da inclusão digital prega.

Eu tenho alguma coisa de extremamente retardado. Quando o discurso sobre algo é homogêneo, eu desconfio. Como dizia o bigodudo Nietzsche, não há verdades, apenas interpretações. Se todas as interpretações são iguais, alguma coisa de errada tem aí…

Dogmas da inclusão digital

Foi aí que eu achei o artigo do André Lemos, Dogmas da inclusão digital, no qual ele questiona essa uniformidade encontrada nos discursos sobre o assunto.
No artigo, ele diz que há três dogmas sobre esse assunto:

  • Por que incluir? Ninguém discute os motivos da inclusão social. Essa inclusão é tomada como decisão certa a priori.
  • O que significa incluir? De forma geral, significa dar condições econômicas para que os excluídos tenham acesso às tecnologias de informação e comunicação e educá-los para usarem estas tecnologias.
  • Para que telecentros? Se a tendência é a profusão da rede por todos os meios, para que um centro de informática?

Questiona também se essa inclusão digital não é o mesmo que uma adaptação forçada ao status quo:

Mais uma vez incluir aqui significa adaptar, moldar e formar indivíduos capazes de manipular programas e sistemas operacionais que poderão estar superados daqui a alguns meses. Incluir é adaptar ao status quo vigente pela lógica tecnocrática dos yuppies nadasquianos?

Dia 15 de março foi o Dia do Consumidor

Seguindo um pouco por essa lógica, mas desviando outro pouco, me pergunto: até que ponto a inclusão digital não tem o objetivo de transformar não-consumidores de TICs em consumidores? Isso talvez seja um efeito colateral, mas quem já estudou um pouco processos comportamentais, sabe que muitas vezes, os efeitos colaterais acabam se tornando os principais efeitos e controladores de um evento.

Ora, se o indivíduo está excluído da sociedade da informação, ele não consome hardware, nem software. Deixa de comprar n bugigangas e widgets criados por nós, designers, engenheiros, analistas de sistemas e tecnológos em geral. As super-mega-hiper-multinacionais de software, hardware e mídia perdem usuários e consumidores dos seus produtos. Poderiam estar ganhando mais, afinal há um nicho do mercado inexplorado. Como fazer com que toda a sociedade consuma os nossos produtos? A inclusão digital não é um ótimo caminho?

Até que ponto a inclusão digital não se refere à inclusão no público-alvo das empresas? Mas por outro lado… se todos não tivermos um iPod, e dançarmos nas sombras, não faremos parte da sociedade da informação, não é mesmo?

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



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