Além do uso: definindo interatividade

Para compreendermos a noção de interatividade na relação homem-máquina ou homem-máquina-homem, é necessário primeiro, entendê-la no dia-a-dia, na relação homem-homem.
Imagine a seguinte cena: você chega num boteco onde estão seus amigos. Lá pelas tantas, alguém te faz uma pergunta, e antes de você responder, ele te dá as alternativas. Você responde do seu jeito. Erro 404. Ou então, um alert (Você não respondeu da forma adequada!?).
Essa cena estilo Monty Phyton é um tipo de interação, concorda? Mas falta a ela algo para podermos dizer que nessa interação, há interatividade…

Algumas definições prévias…

Para entrarmos no reino da interatividade, devemos passar antes pelas suas bases. Por isso, algumas definições:

Interação, para a Análise do Comportamento, é sinônimo de comportamento. É uma ação sob o ambiente. Interação, desta forma, difere de “resposta” ou simplesmente “ação”, uma vez que o comportamento é definido enquanto relação com o ambiente (a resposta é apenas um dos elementos da interação).

Podemos definir interação interpessoal ou interação social como uma relação de interdependência entre duas ou mais pessoas, onde a ação de cada uma depende da ação do outro. Numa interação interpessoal (que caracteriza a comunicação humana), temos três fatores: os participantes, a relação em si e o contexto.

Já comunicação, é basicamente sinônimo de interação entre dois elementos, não se limitando aos agentes da comunicação serem pessoas, mas qualquer ser / objeto que tenha a capacidade de interagir com outro.

Alguns estudos no campo de design de hipermídia….

Arlindo Machado (1997) aponta para o uso elástico do termo “interatividade”, fazendo com que o mesmo refira-se a tudo e nada ao mesmo tempo. O autor, já em 1990, discutindo Raymond Williams, faz uma distinção entre dois tipos de sistemas de informática: reativos e interativos. Sistemas caracterizados como reativos seriam aqueles que deixam ao usuário a opção de reagir aos estímulos a partir de respostas pré-definidas. Isto é, as respostas que o usuário pode emitir são previamente selecionadas pelo sistema (ou pelo programador), restando a ele transitar pelo programado, disparando as possíveis alternativas que o sistema apresenta. Já em sistemas interativos, os agentes envolvidos na comunicação podem interagir livremente. É basicamente a diferença entre preencher um questionário com alternativas fechadas e escrever uma redação. No primeiro caso, a resposta que o agente da comunicação emitirá só pode ser alguma daquelas previamente escolhidas por quem projetou o questionário. No segundo caso, a resposta varia de acordo com o repertório comportamental do autor.

Alex Primo (1998) usa os conceitos de Machado de reatividade e interatividade, mas assumindo que os dois são tipos de interação. Já que o que caracteriza a interação entre dois agentes é a interdependência entre as respostas dos dois envolvidos, mesmo a reatividade seria um tipo de interação. Por isso, o autor conceitua dois tipos diferentes de interação, de acordo com o seu nível: mútua e reativa.

Interação Mútua x Interação Reativa

Em uma interação mútua, temos a tal da interatividade, que seria um tipo de interação de nível alto elevado. Os elementos envolvidos no processo de comunicação (chamados pelo autor de “agentes intercomunicadores ?), não têm mais o papel definido de emissor e receptor da mensagem. Eles se intercambiam, assim como numa interação entre dois amigos numa mesa de bar. Aí se encontra a interatividade (e o conceito de interator em produtos de hipermídia). O critério então, para definirmos interatividade, é a bidirecionalidade do processo de interação, onde ambos (ou mais) elementos envolvidos no processo de comunicação podem emitir respostas abertas, não pré-definidas anteriormente por um dos envolvidos. As respostas dos dois (ou mais) elementos da interação são “livres” (no sentido de dependerem mais do repertório comportamental dos interagentes do que de alternativas apresentadas uns aos outros).

Em uma interação reativa, há obviamente interação, mas um outro tipo, de nível mais fraco. As escolhas do usuário e suas respostas são previamente determinadas pelo sistema / produto. A resposta depende mais do repertório comportamental do projetista / programador do que propriamente do usuário. O uso de um produto (sua operação) é caracterizado por este tipo de interação. Isto é, o produto dá várias alternativas possíveis ao usuário, e cabe a ele selecionar uma delas. Todos os estudos de usabilidade refletem isso: como fazer com que as alternativas de uso que o produto dá ao usuário sejam “compreendidas ? pelo mesmo. Nada de negativo ou pejorativo nesta afirmação, apenas ressaltando que são formas e níveis de interação diversos, para serem projetadas em diferentes produtos, com diferentes objetivos.

Estes dois tipos de interação traduzem-se no que são chamados de interface virtual e potencial, respectivamente (remetendo diretamente a Pierre Levy – assunto pra outra conversa). É importante ressaltar que nenhum (ou nenhum que eu possa pensar agora) produto de hipermídia apresenta apenas um tipo de interface. A grande maioria dos sistemas / produtos de mídia interativa apresentam os dois tipo de interfaces, e consequentemente, os dois tipos de interação.

Algumas pontos de vista da psicologia…

Sendo a Análise do Comportamento, a ciência do comportamento, e este entendido como interação, acredito que ela possa nos dar alguma luz sobre o assunto.
Contingência, no escopo da Análise do Comportamento, refere-se aos “componentes das relações comportamentais que apresentam relação de dependência entre si”. Analisar uma contingência, neste sentido, é “separar ? os elementos que formam o evento comportamental e suas relações.

Em uma contingência de três termos, analisamos os seguintes elementos do evento comportamental: estímulo antecedente (ou o que está presente), a resposta (ou a ação da pessoa) e o estímulo conseqüente (a apresentação ou não de x). Uma contingência de três termos pode ser representada da seguinte maneira:

Estímulo Antecedente — Resposta — Estímulo Conseqüente

Trazendo a contingência de 3 termos para o processo de comunicação, num diálogo (que por sua vez, tem como natureza a bidirecionalidade que marca a interatividade), por exemplo, poderíamos dizer que dada uma mensagem (o estímulo – ou sinal), o outro agente envolvido emite uma resposta (uma outra mensagem), a qual por sua vez, será consequenciada com outra mensagem, que por sua vez, será outro estímulo antecedente para outra resposta e assim vai…

Pode-se perceber daí, que numa interação reativa, o que diferenciaria a contingência seria a forma destas respostas, que restringiria a resposta do outro elemento envolvido no processo. A emissão da resposta (o termo do meio) de um (ou de ambos) elemento(s) desta contingência depende mais das alternativas apresentadas pelo outro elemento (que faz o papel de estímulo para o outro elemento) do que do repertório comportamental deste.

Piaget, com sua proposta conhecida como construtivista interacionista, nos apresenta dois conceitos úteis para a questão da interatividade: o de cooperação x coação.

Piaget define cooperação como “toda relação entre dois ou n indivíduos iguais ou acreditando-se como tal, dito de outro modo, toda relação social na qual não intervém qualquer elemento de autoridade ou de prestígio”. Já nas relação de coação, “é próprio impor do exterior ao indivíduo um sistema de regras de conteúdo obrigatório”. Não é difícil aqui, estabelecer uma comparação entre estes tipos de relações sociais com os tipos de interação definidos por Primo. Daí, não é difícil comparar o uso com a coação e a interatividade com a cooperação.

Algumas considerações…

Das noções aqui expostas, podemos concluir então:

  • O uso e a interatividade são caracterizadas por tipos de interação diferentes. O primeiro, pela interação reativa. O segundo, pela interação mútua.
  • Todo interator é um usuário. Porém, nem todo usuário é um interator. Como não há pura interatividade (pelo menos, não que eu conheça até hoje) em produtos de hipermídia, o interator ainda é também um usuário. Mas nem todo usuário é um interator.
  • Por limitações tecnológicas (não vou entrar no campo de inteligência artificial nem a pau – pelo menos, por enquanto), a interatividade que temos atualmente não é de homem-máquina, mas sim de homem-máquina-homem. Os sites ou qualquer outro produtos de mídia interativa que realmente possuem a propriedade da interatividade são aqueles que colocam um (ou mais) homem para interagir com outro(s) homem(ns). O resto, por enquanto (hoje é dia 15 de maio de 2006, segundo o calendário cristão), é papo de marketeiro.
  • Impressiona como os produtos / serviços que mais usamos na internet (e-mail, instant messengers, listas de discussão, foruns etc.) são aqueles que possuem interatividade, a interação do dia-a-dia. E não aqueles com efeitos visuais impressionantes com botões que pulam.

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



Leave a Reply