Ainda estamos no berçario

Incunábulo é a denominação dada aos livros impressos logo depois que se deu a invenção da prensa tipográfica por Gutenberg, mais exatamente, entre o período de 1455 (a invenção de Gutenberg) até 1501. Esses pseudo-livros mais davam continuidade à tradição dos manuscritos do que exploravam as características próprias do livro. Isto é, eles usavam as características da linguagem do manuscrito, mas através do livro.

Esse termo (incunábulo) foi dado à esses primeiros livros graças ao termo em latim “incunabulu”, usado para denominar faixas nas quais os bebês eram envolvidos (uma espécie de fralda), ou ainda, berços.

Quando se deu a criação da câmera cinematográfica, filmes com narrativas eram chamados de photoplays (”fototeatro”), para se referir à adição da fotografia com o teatro, pois eram basicamente isso. Peças de teatro sendo filmados de forma estática pela câmera. Tais filmes eram considerados então, uma extensão dos dois meios anteriores. A linguagem cinematográfica tal como a conhecemos hoje, foi sendo construída lentamente durante as três primeiras décadas do século passado, através da experimentação das propriedades físicas do filme.

No livro Hamlet no Holodeck, a autora Janet H. Murray diz:

“Uma das lições que se pode tirar da história do cinema é que formulações aditivas, como ‘fototeatro’ ou o contemporâneo e demasiado abrangente termo ‘multimídia’ são um sinal de que o meio está ainda nos estágios iniciais de desenvolvimento e continua a depender de formatos derivados de tecnologias anteriores, ao invés de explorar sua própria capacidade expressiva.”

Uma das críticas que já vi em listas de discussão ao estado do design para internet, de modo geral, é que estamos criando apenas folhetos eletrônicos. De alguma forma, estamos extendendo o uso da mídia impressa para a hipermídia, sem nos aproveitarmos das imensas possibilidades que esse novo meio nos dá. Muitas vezes, estamos apenas reproduzindo projetos de mídia impressa para serem veículados na hipermídia, ou seja, transpondo um projeto de uma mídia para outra. Tal fato pode ser percebido através das denominações que damos aos elementos do nosso trabalho, como quando falamos “páginas” ao invés de interfaces. Estamos usando (e criando) a hipermídia através do modelo que temos do papel. Afinal, o maior modelo que temos do design do século XX é o design gráfico, com sua linguagem visual para o papel, não? Então vamos fazer jornais, revistas e folhetos para internet…

Porém, a hipermídia não é papel. Nem revista, nem livro.

A web 2.0 foi um avanço (ou uma outra interpretação) em relação à esse modelo que temos da hipermídia como uma extensão do papel. Ela veio agarrando-se as propriedades do computador. Se usamos o computador como plataforma de softwares, extendemos tal uso para internet. Porque afinal, estamos acostumados a navegar na internet apenas através do computador. Consequentemente, enxergamos a internet como algo pertencente à essa máquina estúpida que temos em nossa frente nesse exato momento. Logo, o uso da internet que fazemos deve ser similar ao que damos ao computador, não? Então vamos fazer planilhas eletrônicas, processadores de texto, editores de apresentações para internet…

Porém, a hipermídia não é computador. Nem Windows, nem Mac.

Ainda estamos numa era incunabular, numa fase de transição. Estamos fazendo produtos de hipermídia de níveis do berçario. Não aproveitamos as possibilidades que a linguagem nos dá, talvez por não a entendermos ou por ainda estarmos aprendendo-a. Ora pensamos no modelo do papel, ora pensamos no modelo do computador. Mirando um ou outro, ou mesmo ambos, erramos o alvo.

Ainda podemos fazer muito mais. Afinal, ainda estamos no berçario.

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



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