A apresentação visual de informações qualitativas

Natureza dos dados

Em projetos de visualizações, antes de realizarmos o mapeamento visual, dividimos os dados a serem exibidos de acordo com sua natureza (tipo, número de dimensões e estrutura) ou o modelo mental que o usuário possui deste conjunto de dados para formular suas perguntas:

Tipos dos dados:

  • Qualitativos
    • Nominais (escala nominal)
    • Ordinal (escala ordinal)
  • Quantitativos
    • Discretos (escala intervalar)
    • Contínuos (escala racional)

Número de dimensões dos dados:

  • Dados unidimensionais (1 variável)
  • Dados bidimensionais (2 variáveis)
  • Dados tridimensionais (3 variáveis)
  • Dados multidimensionais (n variáveis)

Estrutura dos dados:

  • Dados lineares
  • Dados temporais
  • Dados espaciais (ou dados geográficos)
  • Dados hierárquicos
  • Dados em rede (network)
  • Dados textuais

A área de visualização da informação (infoVis) têm concentrado quase todos os seus esforços em apresentar informações quantitativas. Os livros mais conhecidos da área são o Visual Display of Quantitative Information, do Tufte (que inspirou o título deste post) e Show me the Numbers, do Stephen Few, que pelos títulos já demonstram o foco de suas preocupações: quantidades.

Antes de mais nada, quando falamos de visualização, falamos de design de informação (o projeto de displays) com objetivo de aumentar o conhecimento ou entendimento, ou seja, como um meio para cognição aumentada ou desempenho melhorado. Segundo a definição mais clássica:

A graphical representation of data or concepts, which is either an internal construct of the mind or an external artifact supporting decision making.

Enquanto a visualização da informação seria:

The use of computer-supported, interactive, visual representations of abstract data to amplify cognition. – Card

Information visualization utilizes computer graphics and interaction to assist humans in solving problems. – Purchase

The purpose of information visualization is to amplify cognitive performance, not just to create interesting pictures. Information visualizations should do for the mind what automobiles do for the feet. – Card

No manifesto do Manuel Lima, um dos pontos mais controversos foi a separação entre information visualization e information art. Enquanto a primeira foi tratada como um meio para a cognição aumentada, a segunda foi tratada como um mero agrado para os olhos. E é aqui que eu tenho minhas contestações.

A pergunta que eu faço aqui é: a arte pode ser concebida como visualização da informação qualitativa?

A arte como visualização de informações qualitativas

guernica2

O Guernica do Picasso pode não ter uma densidade alta de informações quantitativas. Mas apresenta para o espectador uma imensa densidade de informações qualitativas. Neste sentido, ela tem como efeito a compreensão de um fato (o bombardeio na cidade de Guernica). Uma visualização de informações quantitativas poderia mostrar o número de mortos, de feridos, de prédios destruídos e por aí vai. Mas o Guernica expressa o mesmo fato através de informações qualitativas. E o efeito, senão maior, é o mesmo: a cognição aumentada.

Processamento digital e analógico

Um pressuposto implícito na diferenciação entre information visualization e information art é a concepção da visualização da informação como uma ferramenta de cognição apenas quantitativa. Creio que em parte, a predominância da quantidade sob a qualidade nos projetos de visualização de informação deve-se ao tipo de dados registrados nos bancos. Porém, a nossa experiência e o nosso processamento de informação, diferentemente dos computadores, não se resume à 0 e 1. As coisas, além de terem medidas, possuem qualidades. Categorizamos as coisas tão ou mais frequentemente quanto as medimos. E percebemos o ambiente muito mais facilmente, através da detecção, discriminação e reconhecimento do que através da formação de escalas. Enquanto os computadores são digitais, nós somos muito mais analógicos.

A visualização deve levar isso em consideração. Não devemos impor a natureza digital dos computadores à natureza analógica dos seres humanos. Do mesmo jeito que a visualização pode ser usada para aumentar o conhecimento e compreensão acerca de dimensões quantitativas de um determinado fenômeno, ela também pode ser usada para aumentar o conhecimento e compreensão acerca das qualidades deste mesmo fenômeno. Tudo vai depender da pergunta a qual a visualização tem a função de responder. As nossas perguntas têm apenas respostas quantitativas ou qualitativas também? Nem todas as respostas são 42.

Um exemplo simples, que elaboramos na neoVis há um tempo atrás, foi uma visualização do que estava acontecendo em Honduras. Decidimos retratar não os números, mas o retrato do Roberto Michelleti, composto através de diversas outras fotos associadas com a sua posse (um mosaico). Ou seja, decidimos ir pelo lado qualitativo ao invés do quantitativo. Poderíamos falar que esse tipo visualização não tem como objetivo aumentar a compreensão sobre os fatos que estavam ocorrendo na ocasião? Creio que não.

Roberto Michelleti, Honduras


Notas de Rodapé

Para quem quiser saber mais sobre o Guernica e o Picasso de forma geral, tem um documentário bem legal produzido pela BBC > O Poder da Arte > Picasso.

Consultor de Behavioral Design, Experience Design, e mestre em Psicologia Experimental. Mais sobre meu histórico profissional e formação acadêmica, você encontra no LinkedIn. Minha missão é fazer do mundo um lugar melhor pras pessoas & fazer da humanidade uma espécie melhor para o mundo. Para tal, projeto ambientes construídos que influenciam positivamente as ações das pessoas.



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